Absolutamente fascinante mergulhar no vasto e profundo mundo da leitura e do conhecimento, que a língua portuguesa nos permite brincar com as palavras de uma forma tão intensa, transformando, partindo de um simples substantivo em uma reflexão existencial sobre a nossa percepção da realidade.
Ao dizer "este maravilhoso tempo e o tempo que nos maravilha", toco em uma dualidade que pode intrigar filósofos, cientistas e poetas, como ocorre há milênios:
- a relação entre o tempo cronológico (o Chronos) e,
- o tempo da experiência vivida, da percepção e,
- do encantamento (o Kairos).
Para explorarmos tal reflexão com a devida complexidade que detém e que ela merece, mergulhemos nos detalhes que tornam essa percepção do "tempo" algo tão especial e multifacetado:
A Natureza Dual do Tempo: O Relógio vs. A Emoção
Quando digo que um tempo é "maravilhoso", raramente estou me referindo à precisão técnica de um relógio de césio ou ao movimento mecânico dos ponteiros. Na verdade, estou descrevendo a nossa interação subjetiva com o presente.
O "tempo que nos maravilha" é aquele que parece se expandir quando estamos felizes ou se comprimir quando estamos imersos em uma atividade que amamos (o que a psicologia moderna chama de estado de Flow ou Fluxo).
Desse modo, enquanto o tempo físico é constante e impessoal, o tempo que "maravilha" é intensamente pessoal, colorido pelas nossas memórias, expectativas e pelo estado de espírito do agora.
O Ano Novo se vai ... A Maravilha da Efemeridade e do Ciclo
Existe algo intrinsecamente belo na impermanência. O tempo nos maravilha justamente porque ele é o recurso mais escasso e precioso que possuímos. Cada segundo que passa é único e irrepetível.
Na natureza, observamos isso através das estações:
- o desabrochar de uma flor na primavera ou,
- o tom alaranjado de um pôr do sol de outono.
São eventos que dependem estritamente da passagem do tempo para existirem. Essa transitoriedade não deve ser vista com tristeza, mas como o tempero que dá valor à vida; se as coisas fossem eternas e estáticas, a "maravilha" provavelmente se perderia na monotonia da permanência.
Curiosidades sobre a nossa percepção temporal:
• O Efeito Telescópio: Você já teve a sensação de que eventos ocorridos há muito tempo parecem ter acontecido ontem? Isso ocorre porque o cérebro humano tende a organizar memórias significativas com uma nitidez que desafia a cronologia linear, mantendo o "maravilhamento" vivo por décadas.
• Dilatação Temporal Psicológica: Em momentos de "grande adrenalina" ou "beleza extrema", o cérebro processa informações com tamanha densidade que temos a impressão de que o tempo "parou":
• É o ápice do tempo que nos maravilha, onde a fração de segundo ganha a importância de uma era!
Assim, a jornada etimológica da dita palavra "maravilha" é um mergulho fascinante na história das línguas românicas e na forma como a percepção humana processa o extraordinário, o inesperado e o belo!
Para entender de onde vem esse termo que usamos para descrever:
- desde um fenômeno natural estonteante,
- até um pequeno momento de felicidade cotidiana,
precisamos retornar às raízes do latim clássico e observar como a língua se transformou ao longo dos séculos.
A origem direta de "maravilha" reside no substantivo latino neutro plural mirabilia. No latim, mirabilia era utilizado para designar:
- "coisas admiráveis",
- "acontecimentos espantosos" ou,
- "objetos de admiração".
É interessante notar que, na transição do latim para as línguas românicas (como o português, o espanhol e o francês), muitos termos que eram plurais neutros acabaram sendo reinterpreatados como substantivos femininos singulares, o que explica por que temos "a maravilha" no singular hoje em dia.
Aprofundando-nos ainda mais na árvore genealógica da palavra, descobrimos que "mirabilia" é derivada do adjetivo mirabilis (maravilhoso), que por sua vez provém do verbo mirari. Este verbo latino significa "olhar com pasmo", "admirar-se", "espantar-se" ou simplesmente "olhar com atenção".
A raiz mais primitiva de todas remete ao radical indo-europeu smeiros-, que está ligado à ideia de "sorrir" ou "ficar iluminado pelo espanto".
Curiosamente, essa mesma raiz deu origem à palavra inglesa smile (sorrir), revelando uma conexão ancestral entre o ato de ver algo maravilhoso e a reação física de alegria ou surpresa no rosto humano.
Ainda, segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, maravilha, atestado desde o século XIII, evoluiu do latim 'mirabĭlĭa', «coisas admiráveis», plural neutro substantivado do adjectivo 'mirabilis', «admirável, maravilhoso, espantoso, singular».
Maravilhar (incluindo a forma na conjugação pronominal reflexa maravilhar-se) é um verbo derivado de maravilha, já no âmbito da própria língua portuguesa.
Milagre provém de 'mirācŭlu-', «prodígio, maravilha, coisa extraordinária» (José Pedro Machado, op. cit.). A palavra terá sofrido influência culta, provavelmente eclesiástica. Na Idade Média existiu a forma intermédia "miragre".'
Para entender como essa palavra se ramificou e se consolidou, vale a pena observar os seguintes pontos sobre sua evolução e conexões:
• A Evolução Fonética e a Adaptação Linguística: Conforme o latim vulgar se transformava nas línguas que falamos hoje, o termo mirabilia passou por adaptações sonoras naturais, como:
- Em português, consolidou-se como "maravilha";
- em espanhol, tornou-se maravilla, cujo nome que evoca admiração, espanto e algo extraordinário.
A sua utilização como nome próprio pode ser vista como uma forma de expressar o desejo de que a pessoa que o carrega seja uma fonte de encanto e positividade.
Derivados ou nomes associados podem incluir "Mara" ou variações femininas que compartilham a mesma essência de beleza e encanto, e:
- no francês antigo, deu origem a "merveille" (que, posteriormente, seria a base para o inglês marvel).
• O Conceito de "Mirabilia" na Idade Média: Durante o período medieval, o conceito de mirabilia era quase uma categoria literária e científica. Viajantes e exploradores escreviam relatos sobre as "maravilhas do mundo" (como as famosas Sete Maravilhas da Antiguidade), descrevendo criaturas exóticas, arquiteturas impossíveis e fenômenos naturais que desafiavam a compreensão da época.
Se você tiver interesse em explorar esses textos históricos, pode consultar acervos digitais como os residentes da:
• Biblioteca Nacional de Portugal, que guardam manuscritos onde o termo era frequentemente empregado para descrever o desconhecido.
• Conexões com o Olhar e o Espelho: É fascinante notar que a raiz mir- está presente em diversas outras palavras do nosso vocabulário que compartilham a ideia de visão e reflexo.
Por exemplo, a palavra "miragem" (um fenômeno óptico que engana a vista) e o termo "espelho" (que em latim é speculum, mas que em outras línguas deriva de raízes de olhar, como no espanhol mirar e no termo técnico mirar). Até mesmo a palavra "admirar" (ad-mirare) significa literalmente "olhar para algo com espanto ou aprovação".
• O Uso Moderno e a Expansão do Significado: Hoje, embora a palavra mantenha sua "aura de grandiosidade", ela também se tornou parte do nosso "vocabulário de intensidade". Usamos "maravilha" como uma interjeição de concordância ou entusiasmo ("Que maravilha!").
Essa diluição do sentido original mostra como o ser humano tende a buscar o extraordinário até nas pequenas interações, transformando o "objeto de espanto" em um "estado de satisfação".
Resumidamente, a palavra maravilha é um testemunho linguístico da nossa capacidade de nos surpreendermos com o mundo ao nosso redor.
Ela nasceu do ato de observar atentamente e evoluiu para representar tudo aquilo que, por sua beleza ou singularidade, nos obriga a parar e contemplar!
É uma palavra que carrega em seu DNA o brilho nos olhos de quem vê algo novo pela primeira vez, mantendo viva a conexão entre a visão física e a emoção interna de encantamento. Principalmente diante da presença do hoje, um tempo novo!
Que maravilha ... Feliz Ano Novo!
Por: Roberto Costa Ferreira - 01jan26.
Prof,Pesquisa,Pedagogista,Med-MEng
HILASA-SP-Instit.História Letras Artes
SANTO AMARO - SÃO PAULO - SP.