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segunda-feira, 16 de março de 2026

Poeta social, o republicano, o abolicionista, o cantor dos escravos!

O baiano Antonio Frederico de Castro Alves

O baiano Antonio Frederico de Castro Alves (1847-1871), apesar de sua morte precoce, é considerado um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos. De formação cultural sofisticada, construiu sua poesia sobre temáticas eminentemente brasileiras, alcançando uma admirável compreensão da alma popular.

Nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, da Academia Brasileira de Letras por escolha do fundador Valentim Magalhães.

Era filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos, e, por esta, neto de um dos grandes heróis da Independência da Bahia.

Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para a capital, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro Barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia. Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se finalmente na Faculdade de Direito em 1864.

Cursou o 1º ano em 1865, na mesma turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos. Em 1866, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou apaixonada ligação amorosa com atriz portuguesa Eugênia Câmara, dez anos mais velha, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.

Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração. Escreveu o drama Gonzaga e, em 1868, transferiu-se para o sul do país em companhia da amada, matriculando-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara.

Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi, afinal, amputado no Rio, em meados de 1869. Sua saúde, que já se ressentira de hemoptises desde os dezessete anos, quando escreveu “Mocidade e Morte”, cujo primeiro título original era “O tísico”, ficou definitivamente comprometida.

De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 1870 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a tuberculose. Em novembro, saiu seu primeiro livro, Espumas flutuantes, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores.

Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora italiana Agnese Trinci Murri. Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior empresa a que se propusera, o poema Os escravos, uma série de poesias em torno do tema da escravidão.

Ainda em 1870, numa das fazendas em que repousava, havia completado A Cachoeira de Paulo Afonso, que saiu em 1876, e que é parte do empreendimento, como se vê pelo esclarecimento do poeta: “Continuação do poema Os escravos, sob título de Manuscritos de Stênio.”

Duas vertentes se distinguem na poesia de Castro Alves: a feição lírico-amorosa, mesclada de forte sensualidade, e a feição social e humanitária, em que alcança momentos de fulgurante eloquência épica. Como poeta lírico, caracteriza-se pelo vigor da paixão, a intensidade com que exprime o amor, como desejo, frêmito, encantamento da alma e do corpo, superando o negaceio de Casimiro de Abreu, a esquivança de Álvares de Azevedo, o desespero acuado de Junqueira Freire.

A grande e fecundante paixão por Eugênia Câmara percorreu-o como corrente elétrica, reorganizando-lhe a personalidade, inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituem o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas.

Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século XIX, Castro Alves, na linhagem de Victor Hugo, um dos seus mestres, viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista, o que lhe valeu a antonomásia de “Cantor dos escravos”.

A sua poesia se aproxima da retórica, incorporando a ênfase oratória à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas e espirituais se encontram na eloquência dos poetas. Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade.

Dele ressalta a figura do bardo que fulmina a escravidão e a injustiça, de cabeleira ao vento. A dialética da sua poesia implica menos a visão do escravo como realidade presente do que como episódio de um drama mais amplo e abstrato: o do próprio destino humano, presa dos desajustamentos da História.

Encarna as tendências messiânicas do Romantismo e a utopia libertária do século. O negro, escravizado, misturado à vida cotidiana em posição de inferioridade, dificilmente se podia elevar a objeto estético, o que ele alcançou, no entanto, numerosas vezes. Surgiu primeiro à consciência literária como problema social, e o abolicionismo era visto apenas como sentimento humanitário pela maioria dos escritores que até então trataram desse tema.

Só Castro Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o como herói, como ser integralmente humano. Com seu lirismo exacerbado compôs poemas antológicos do romantismo brasileiro, mas não afastou-se jamais de sua veia libertária de onde emergiu o poeta social, o republicano, o abolicionista, o cantor dos escravos.

Alguns poemas, como "O navio negreiro" e "Vozes d'África", obtiveram enorme sucesso popular quando declamados pelo poeta e se transformaram em verdadeiras bandeiras na luta contra a escravidão. O livro "Os escravos" foi publicado de forma independente pela primeira vez em 1883, doze anos após a morte do autor e reúne as composições antiescravagistas de Castro Alves, entre elas, os famosos poemas abolicionistas “O Navio Negreiro” e “Vozes d'África”.

Nos poemas de Os Escravos de Castro Alves, a poesia é suplantada pelo discurso político grandiloquente e até verborrágico. Para atingir o alvo e persuadir o leitor e, muito mais, o ouvinte, o poeta abusa de antíteses e hipérboles e apresenta uma sucessão vertiginosa de metáforas que procuram traduzir a mesma ideia. A poesia é feita para ser declamada e o exagero das imagens é intencional, deliberado, para reforçar a ideia do poema.

Ao longo de Os Escravos de Castro Alves e A Cachoeira de Paulo Afonso, Castro Alves vai apresentando ao leitor a vida do cativo, negro ou mestiço, sujeito à crueldade dos senhores, que arrancam os filhos dos braços das mães para os vender, estupram as mulheres, torturam e matam impunemente os “Homens simples, fortes, bravos…/ Hoje míseros escravos/ Sem ar, sem luz, sem razão…”

Afrânio Peixoto registra que esta obra deu a Castro Alves, então o maior poeta lírico e épico do Brasil pelos livros Espumas Flutuantes e Hinos do Equador, o "renome de nosso único poeta social", e também como "poeta dos escravos" e "poeta republicano", no dizer de Joaquim Nabuco, e ainda o "poeta nacional, se não mais, nacionalista, poeta social, humano e humanitario", no dizer de José Veríssimo.

Peixoto ressalta que a obra propaga a causa abolicionista. Registra que seus primeiros versos pela libertação dos cativos datam de 1863, quando contava somente dezesseis anos de idade; a maioria deles, contudo, é de dois anos mais tarde, 1865, quando são publicados, declamados e divulgados em todo o país, antecedendo autores como Tavares Bastos e dando o prenúncio da geração que traria a luta pela causa anti-escravidão como um dos ideais a ser perseguido e somente alcançado duas décadas depois.

Única peça de teatro escrita por Castro Alves, "Gonzaga ou A Revolução de Minas : drama historico brazileiro" foi encenada pela primeira vez na Bahia, no dia 7 de setembro de 1867, com estrondoso sucesso, sendo o poeta coroado e carregado nos ombros pelos admiradores até sua casa. O drama, carregado de patriotismo, recebeu elogios de José de Alencar e Machado de Assis e obteve consagração também em São Paulo, quando foi levado a cena, em outubro de 1868.

O Único livro publicado em vida do poeta, "Espumas flutuantes" teve grande e contínuo sucesso de público. Trata-se de uma coletânea de textos produzidos entre 1864 e o ano da publicação, na qual se encontram os vários tons da sua poesia: o intimista, o coloquial e o grandiloquente. Organizada paralelamente ao volume 'Os escravos', que o poeta não teve tempo de publicar, a coletânea não traz, por isso mesmo, os poemas abolicionistas que o consagraram.

Em “Ode ao Dois de Julho” (ou “Dous” de Julho, como grafado na versão original), Castro Alves faz uma espécie de poema épica em homenagem à Independência da Bahia, ocorrida em 2 de julho de 1823. Nessa data em questão, houve um conflito intenso entre as forças de Portugal e as do Brasil, resultando na expulsão dos europeus e na consolidação da Independência do Brasil.

Na primeira estrofe vemos uma descrição do campo de batalha, nos cerros da Bahia, com um anjo da morte costurando uma mortalha (um pano funerário) em Pirajá, onde aconteceu um dos conflitos decisivos. Nesse primeiro momento ainda resta a dúvida: qual dos dois gigantes vencerá, Brasil ou Portugal?

Em seguida, Castro Alves compara a batalha a um circo, como ao Coliseu, famoso pelas lutas de gladiadores. Entretanto, não era uma batalha de dois povos, mas uma batalha entre dois ideais: o passado e o futuro, a escravidão ou a liberdade. A batalha se estende até que a “branca estrela matutina” surge nos céus, marcando o início de novos tempos. E uma voz surge logo em seguida: a voz da Liberdade, que se estenderia às gerações futuras, honrando os soldados que perderam a vida lutando por essa causa.

Por: Roberto Costa Ferreira - 21fev26.

Prof,Pesquisa,Pedagogista,Med-MEng

HILASA-SP-Instit.História Letras Artes

Santo Amaro  - SÃO PAULO - SP.


https://www.academia.org.br/academicos/castro-alves/biografia#:~:text=Biografia&text=Castro%20Alves%20(Ant%C3%B4nio%20Frederico)%2C,escolha%20do%20fundador%20Valentim%20Magalh%C3%A3es.



sexta-feira, 13 de março de 2026

ESCRAVIDÃO - Memórias de um ex-escravo reprodutor em Magé - Um relato surpreendente!

 


João Antônio Guaraciaba nasceu no dia 20 de setembro de 1850. Preto, alto, forte, viveu grande parte de sua vida em Magé, Estado do Rio de Janeiro, onde morreu velho, enrugado e de carapinha branca com seus bem vividos 126 anos. Gostava de andar, mas seus passos ficaram lentos denunciando o peso da idade, o reumatismo e as “oito picadas de cobras que levou na perna direita, de tanto viver nos matos”, apesar de “lúcido e ainda enxergando bem para longe e sem sofrer de surdez”. Filho de mãe angolana que o teve aos quinze anos, e o Barão de Guaraciaba “um mestiço fazendeiro comprador de escravos negros na África onde conheceu sua mãe Angelina, então negra forte e bonita”. Depois de engravidá-la, prometeu buscá-los em outra viagem, trazendo-os assim para o Brasil num veleiro negreiro.

João tinha apenas quatro anos de idade. Registrado em Magé, onde “tirou certidão com testemunha e tudo”, como filho do barão e Angelina Maria Rita da Conceição (nome cristão), “por que naquele tempo não tinha disso não, a data do nascimento passava de boca em boca, de parente para parente”.

Quando foi para Mauá, então Guia de Pacobaíba freguesia de Magé, João tinha 17 anos, levado pela mão de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá “para tirar (procriar) raça de crioulo escravo para o Imperador, que conheceu aquele preto forte na fazenda do Barão de Guaraciaba, onde passou uns tempos e pensou até que ele era escravo. 

Chegou a querer comprá-lo, mas o pai disse que não vendia, “porque João era seu filho”. Ao chegar a Pacobaíba, na barca do Barão de Mauá aquele negro de “mãos de dedos longos, braços fortes, capaz de segurar com força as mulatas e crioulas da fazenda”, viu pela primeira vez “o trem vomitando fogo e fumaça” e apesar de não ter sido escravo, “trabalhou no porto onde os barcos veleiros atracavam”.

Viu diversas vezes o Imperador desembarcar no cais de Pacobaíba e pegar o trem para Raiz da Serra onde embarcava na charrete até Petrópolis. “Era um homem sempre com o rosto limpo e bem tratado”. Ficou em Pacobaíba fazendo alguns serviços para o Barão até “despois que apanhei idade é que fui escolhido para tirar raça.

Na minha fazenda só tinha eu de reprodutor”. Segundo suas próprias palavras, ele só foi levado para as fazendas de Petrópolis e Correias com 23 anos de idade quando assumiu sua nova “obrigação”. 

Guaraciaba afirmou que deixou mais de 300 filhos: 100 para D. Pedro II e 200 para o Barão de Mauá, fora os que teve com as mulheres da fazenda de seu pai,  em Campos, ainda  adolescente. “Ficou  nessa  vida de reprodutor,  deitando-se  com  duas,  três,  quatro mulheres  por  dia  nas senzalas em que o  Barão e  o Imperador  mandavam até os 38 anos,  quando a Princesa Izabel aboliu a escravidão.”  A história registra que, quando João nasceu em 1850,  a Lei Eusébio de Queiroz  confirmava  a  Lei de 1831  extinguindo o  tráfego de  escravos,  punindo  com  penas severas os infratores.  Seguiu-se a  Lei  dos sexagenários de 1855. A Lei de 1869  libertando os servos que fossem para a guerra do Paraguai. A Lei do Ventre Livre de 1871, e finalmente a Lei da Abolição de 1888. João se lembrava  que  depois  que  surgiu  a Lei  do  Ventre  Livre,  todos continuaram escravos, “agregados  às  fazendas  sem  outro  ganho  que  não  a  casa  e  comida simples”. Foi  escolhido  para  ser  reprodutor   por que  “era  preto  de  Angola”.  Os senhores queriam pessoas bem fortes para esse serviço. “Se nhô quer saber:  nas  fazendas  que  eu ficava aquelas que não  panhavam  prenhez  comigo  eram vendidas para outros fazendeiros.  Os donos tinham muito interesse em mulher que reproduzisse, pra ter mão-de-obra barata, pra trabalhar a cana, o café e a mandioca”.

Achava a “atividade” legal por que “era premitido”. Ele gozava de regalias que o resto da negrada não tinha. “Jamais entrou no chicote, nem foi açoitado no tronco ou acorrentado. Nunca levou bolo de palmatória ou teve pés e mãos amarradas no instrumento de tortura chamado “vira mundo”, onde muito escravo morreu. Às vezes morriam com gangrena, de tanto esfregarem os braços nas correntes para se soltarem cortando a carne que infeccionava”. 

Com ele foi diferente, embora trabalhasse com os escravos  do Imperador, ajudando na lavoura quando podia, tanto que era aposentado pelo Funrural e recebia mensalmente por um banco de Magé Cr$ 300,00. “É muito pouco” dizia ele “não dá pra viver não. Se não fosse os amigos não sei o que seria”. João também lembrava das canções cantadas no eito pelos escravos. Trocando branco por baranco  ou  furta por fruta,  cantava o  “Lundu do Pai João” que  falava de justiça: “Baranco dize: preto fruta / preto fruta com razão; / Sinhô baranco quando fruta / quando panha casião; ./ O preto fruta farinha / fruta saco de feijão; / Sinhô branco quando fruta / fruta prata e patacão; / Nego preto  quando  fruta / vai pará na correção. / Sinhô baranco quando fruta / logo sai sinhô barão”.  Ele era  o único na fazenda  que não  pagava  no pesado. Boa  alimentação  e descanso, quando  nas  senzalas as escravas  já  o esperavam. “Era  uma  de cada vez na cama”. João sorri mostrando seus dois únicos dentes amarelos. “De vinte que entravam, quinze pegavam filho”. Quando seu pai o entregou ao Imperador, sabia que ele iria ser “cobridor de mucamas”.

Sua descendência se espalha pela Baixada e na Serra, incluindo parentes do Barão de Guaraciaba, “mas quase não vejo”. Antigamente subia a serra até Petrópolis de trem, mas desde que o Presidente Castelo Branco extinguiu a ferrovia Mauá-Petrópolis por ser antieconômico, raramente ia de ônibus.

Companheiro do Aleixo, no mundo acho no mundo deixo” dizia ele repetindo um ditado popular de seu tempo. Mesmo numa época em que a Igreja vigiava o comportamento sexual das pessoas, muita negra teve filho de senhores e muita senhora amaldiçoou seu marido. Gostou de algumas escravas, mas como lembrar do “jeito” delas se o tempo passou. Muitas já morreram. O que sabe é que tem filhos espalhados “pela aí” de setenta, oitenta anos e que seus traços estão no olhar e no requebro de alguma mulata de hoje, nos ombros largos e nariz afilado de algum crioulo descendente afastado de alguns de seus trezentos filhos.

Naquele tempo, não bebia nem fumava “pra não estragar o corpo”. Gostava de festas: São João, São Pedro, Santo Antônio, São Jorge, São Marcos, e São Sebastião. Gostava de ver capoeiras darem os botes. Cantava e pulava até de Madrugada. Gelados nem pensar, tiram a potência do homem. “Esses gelados pareceu depois da Abolição, não servem pra nada. Só pegou no Brasil porque faz muito calor e o pessoal gosta de refrescar, mas eu conselho a juventude evitar gelados, sorvetes”.

Negro João fica meditando quando é indagado sobre quilombos. Fala sobre o da Vila de Marcos da Costa e o da serra de Santa Catarina, perto de Petrópolis. E os capitães do mato iam lá?

- Iam o que sinhô, então eles eram bestas? Eles se escondiam em barrancos, faziam emboscadas para as tropas, espalhavam armadilhas onde elas caiam.

O preto velho que comandava o quilombo Marcos da Costa, mesmo doente de cama dava ordens: “vai catar o milho, vai cuidar dos porcos. Eles tinham de tudo, campos de gado, plantação de milho”. João conheceu muito crioulo que fugiu para esse quilombo “onde tinha um santo que veio da África e era o padroeiro do lugar, foi trazido pela fazendeira D. Inês, da Fazenda da Glória”. Cansados de verem tanta “malvadeza dos brancos” com seus irmãos de cor, a ponto de preferirem suicidar-se a continuarem escravos, a fuga era uma forma de se libertarem. Em Pacobaíba viu chegar muitos negros e muita negra mina natural de Angola. Uns destinados às fazendas, outros eram anunciados no “Jornal do Comércio” do Rio de Janeiro pelos agentes de escravos para serem vendidos em praça pública. Esse jornal publicava desde 1827 todo o movimento de navios com saída e chegada no porto. Compra, venda, aluguel e fuga de escravos, aconselhando que chamassem a polícia para capturá-lo e oferecendo recompensas a quem o levasse ao seu dono. João afirmava que escutou muita história de negros jogados no mar durante a travessia da África para o Brasil, “pelos comandantes que não queriam ser apanhados em flagrante fazendo tráfico de escravos. Abriam o porão e pronto, todos  os escravos morriam afogados ou eram comidos pelos tubarões”.

Os velhos falavam que era assim, coisa de gente muito ruim ...

“Diz o preto reprodutor que nunca leu jornal, nem no Império nem agora, pois é analfabeto”.

“Guaraciaba ainda se lembra que a fazenda de Pedro II era ali em Mauá, perto do lugar conhecido por Ipiranga dos Remédios. Naquele tempo era católico, mas gostava de macumba. Hoje é Batista, vai aos cultos sábados e domingos”.

Faz algum tempo, trabalhava no transporte de bananas com uma carroça e uma égua de sua propriedade, depois, passou a emprestar o animal ao compadre carroceiro para continuar o serviço, “por culpa de um reumatismo, principalmente no inverno, quando as dores aumentam”. Sobre os “feitores de escravos”, nem gostava de relembrar. Falava sobre a maldade e tortura contra os negros, crianças, mulheres e homens, amarrados no tronco e açoitados. Outros feridos a bala pelos senhores que experimentavam armas ou exercitavam a pontaria.

- O pior fazendeiro que conheci foi Antônio Nicolino, um homão de quase três metros de altura que comprava 100 escravos de três em três anos. Com três anos de trabalho a negrada estava arrebentada de tanta surra. Aí ele mandava comprar aguarrás, fazia uma fogueira e matava aqueles mais fracos.

- Eles pagavam os réis (impostos), e eram donos dos negros. Mas Deus é justo e Nicolino morreu pobrezinho e ninguém chorou (aí Guaraciaba fala sorrindo) porque todo mundo odiava ele.

Nesse tempo João era rapazinho e esses crimes foram testemunhados na Fazenda do Morro Seco, em Vassouras, propriedade de Nicolino.

- Tinha escravo que também era capataz e se juntava com os brancos para bater nos pretos, cercavam a negrada na mata e mandavam bala. Nhô não sabe, mais tinha fazendeiro que se desconfiasse que algum escravo roubou, matava, que era pru mode de não panhar costume.

O velho Guaraciaba está cansado de falar e pára para tomar o café, servido na casa dos compadres onde concedeu essa entrevista. Bebe de um só gole e estala a língua. Perguntado se nunca teve mulheres firmes com quem viveu, diz que sim, a Maria Olina, a Maria Madalena e a Olícia Maria do Carmo, esta com quem, teve uma filha agora com 33 anos, Laura, que mora em Nova Iguaçu, casada com um comerciante português.

“Os moradores de Mauá sabem de sua última mulher, Maria Olícia, que ele diz ser a mãe de Laura, morreu há três anos, com 50 anos. Aí o velho ficou mesmo só, dando suas caminhadas, mas ainda com vontade de caçar negas por aí”.

Acordava de manhãzinha com o cantar dos galos e dormia às oito da noite. Só sabia das horas orientando pelo sol. Não tinha relógio. Perguntado se gostaria de conhecer Angola, país onde nasceu, disse que “gostaria, mas só se fosse de navio”, pois “acho bonito o mar”. São quatro horas da tarde e o velho Guaraciaba quer ir embora pra casa, “hoje não foi almoçar com seus outros companheiros crentes, comeu arroz, feijão e peixe aqui mesmo na casa do compadre Jorge Carroceiro. Quer ir descansar”. Aceita uma carona. Está chovendo e a tarde vai antecipando a noite. Indica a estreita estrada de barro rasgada no mato, que João conhece bem, levando a um pequeno barraco de estuque com quintalzinho nos fundos, onde uma bananeira ao lado da porta tomba com o peso do cacho. Ao saltar do carro gemeu, ao botar a perna direita das oito picadas de cobras e pisar no chão com lama que agarra nos sapatos. Casebre acolhedor, mas que ele desejava melhor, pois nem porta firme tem, embora não se preocupe com ladrões, não há ali nada para roubar.

“Ficaram de me dar uma casa, mas acho que estão esperando eu morrer, diz brincando com um sorriso, pitando seu cachimbo de barro deixando um cheiro de fumo no ar. Na sua pureza ainda acredita em almas do outro mundo, rezando muito para elas não aparecerem em sua vida, principalmente quando vai a Piabetá a pé, sozinho pela estrada, chegando lá ao anoitecer”.

Dentro do barraco somente uma velha cama com colchão de palha forrada com trapos e algumas panelas sobre um armário. Seus bens mais preciosos cabiam dentro de uma lata vazia de leite em pó. Ali eram guardados a certidão de nascimento e um folheto evangélico, nada mais. “Quando quiser escrever uma carta (e pretende pedir uma casa ao Governo), recorrerá à dona Maria e ao seu Miguel, os compadres crentes”.

- O senhor sabe o nome atual do Presidente da República?

- Não sinhô.

- Quais o que o senhor se lembra?

- O Hermes da Fonseca, o Floriano Peixoto.

“Para ele o mundo era ali. O rádio da vizinha irradia ao longe o jogo Fluminense e Olaria transmitido do Maracanã. Um avião quadrimotor passa baixo em direção ao Galeão. Vem de longe também música no rádio, ouvindo-se Jards Macalé cantando “Hei Cantareira” de Jackson do Pandeiro”.

Ali, naquele fim de mundo “Guaraciaba não tem luz, gás, telefone, campainha, porteiros, síndicos, cobradores, talvez nunca tenha sido recenseado pelo IBGE, os Correios não sabem seu endereço. Mas dorme com canto de grilos nos matos, olhando as estrelas nos céus das noites limpas sem poluição”. Na chegada da noite chuvosa, despediu-se dos repórteres desejando boa viagem e perguntando se sabiam seguir pela estrada até Magé. Agradecidos, eles prometeram voltar para atender o seu pedido:

- Trais uns agasaios pra mim, viu? Aqui faz muito frio.

Por: Roberto Costa Ferreira – 14mar26.

Prof,Pesquisa,Pedagogista,Med-MEng

HILASA-SP-Instit.História Letras Artes

Santo Amaro - SÃO PAULO - SP.

Antônio João Guaraciaba, filho ilegítimo de Francisco Paulo de Almeida,
o único Barão Negro do Brasil

TEXTO FACEBOOK: (e respectivo  POSFÁCIO) publicado em 14/03/2026, assim:


João Antônio de Guaraciaba - A Escravidão e o Filho do Barão ...

Algo de estranho notei! A sexta-feira é dia 13 ... E pouco se falou acerca do Dia 13 de maio recentemente havido - Abolição da Escravidão no Brasil. Um fato histórico!

E bem por conta de tal, em dias anteriores de previsão e já prevendo a data, percorri “uns guardados” chegando aos idos de 2006, momento que resgatei a reconstrução dessa magnífica história, à época, seguindo as pegadas do repórter Luiz Carlos de Souza e o fotógrafo U. Dettmar do Rio de Janeiro.

“Numa manhã chuvosa de sábado, dia 7 de junho de 1975, ambos chegaram à Guia de Pacobaíba, Mauá, Distrito de Magé, baixada fluminense, em busca de João Antônio Guaraciaba, ex-reprodutor de escravos, para ouvirem seu depoimento, que restou publicado na mesma época em forma de reportagem, na revista “Livro de Cabeceira do Homem” pela Editora Civilização Brasileira, posteriormente no blog “Pedaços da história de Duque de Caxias/Duque de Caxias, RJ”, projeto concebido pelos jornalistas Alberto Marques e Josué Cardoso.

“Hoje perdida na poeira do tempo, procurei trazê-la, resumindo o extenso texto, numa tentativa de resgatar das cinzas do esquecimento, um pedaço vivo e cruel da escravidão, ressuscitado da memória desse interessante personagem, que se integra na História da Baixada Fluminense e o processo de escravidão que por lá se instaurou. Por oportuno, destaco que daquele tempo, muito devo ao amigo de então, o Guilherme Peres (Pesquisador e já detentor de blog, também diretor do IPAHB - Instituto de Pesquisas Aplicadas e Histórias da Baixada Fluminense) que muito colaborou nesta reserva tendo por base o título que se destaca.”

A história de Antônio João Guaraciaba ilustra essa sombria realidade. Filho ilegítimo de Francisco Paulo de Almeida, o único Barão Negro do Brasil, um homem de imensa riqueza, dono de vastas propriedades, próspero fazendeiro do café, centenas de escravos e banqueiro do Brasil nos tempos do Império, além de empresas diversas como usina hidrelétrica e, para completar a cereja do bolo, João desfrutou de um título de barão concedido pela própria Princesa Isabel – o Barão de Guaraciaba – além de alguns privilégios outros como empresário mineiro. Tal não seria muito diferente de outros nobres da época não fosse um detalhe importante: em virtude de sua origem, ele era negro em um pais de escravos.

Esta é parte da notável da História de Antônio João Guaraciaba, filho ilegítimo de Francisco Paulo de Almeida, o único Barão Negro do Brasil. Sua vida foi marcada por diversas fases de trabalho. Inicialmente, atuou em Guia de Pacobaíba – Mauá, na Ferrovia do Barão de Mauá, onde era responsável por levar água do Rio Mauá para as locomotivas.

É importante ressaltar que o Barão de Mauá não era escravista. Posteriormente, Antônio João foi submetido à desumanizadora função de "REPRODUTOR" de "mão de obra barata". Ele faleceu em 1979, aos impressionantes 128 anos e 4 meses, caminhando pelas ruas de Guia de Pacobaíba - Mauá.

Sua história encontra-se de modo mais amplo no conteúdo do meu blog que convido para acessá-lo, assim como, clicando sobre a foto, assistir ao vídeo e conteúdo referido. 

Por: Roberto Costa Ferreira – 14mar26.

Prof,Pesquisa,Pedagogista,Med-MEng

HILASA-SP-Instit.História Letras Artes

Santo Amaro - SÃO PAULO - SP.

 

Francisco Paulo de Almeida, o único Barão Negro do Brasil, homem muito rico,
dono de vastas propriedades, próspero fazendeiro do café e muitos escravos. 

Também, publicado em Comentário Anônimo, às   10:04 AM, junho 07, 2006, determinada sentença:

“SENTENÇA REVOGADA...

Grande povoador do Reinado de D. João II, em 1487. Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo

SENTENÇA PROFERIDA EM 1487, NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO
(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5, maço7)

"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi argüido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos. Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinqüenta e três mulheres".

[agora vem o melhor:]

"El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezessete dias do mês de março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo".

Por: Roberto Costa Ferreira – 14mar26.

Prof,Pesquisa,Pedagogista,Med-MEng

HILASA-SP-Instit.História Letras Artes

Santo Amaro - SÃO PAULO - SP.


terça-feira, 10 de março de 2026

Ministro Luiz Fux dedicando a homenagem ao pai, o advogado Mendel Fux.

À vista das recentes atuações e das 'magistrais performances' no contexto do direito nacional, destaco que, de um momento de lucidez e luz, passo a considerar que ainda há esperança! Termos como 'magistrado por excelência' e 'independência olímpica' motivam o avanço desta breve síntese reflexiva sobre os principais pontos analisados.

Tais expressões referem-se a conceitos de ética, postura e autonomia no Poder Judiciário. 'Independência olímpica', por exemplo, é uma metáfora menos comum em textos legais estritos, sendo mais utilizada na literatura jurídica e filosófica para descrever o estado de neutralidade absoluta.

O Magistrado por Excelência ...

O 'magistrado por excelência' não designa um cargo específico, mas um perfil idealizado de julgador que reúne virtudes técnicas e éticas superiores para a administração da justiça, a saber: 

     · Virtudes Éticas: Deve possuir integridade, honestidade, prudência e um profundo sentimento de justiça; 

     · Capacidade Técnica: Exige-se dedicação constante ao estudo, cultura jurídica e capacidade de interpretação rápida e fundamentada das leis; 

     · Tratamento Formal: No cotidiano jurídico, "Excelência" (ou Vossa Excelência) é o pronome de tratamento obrigatório para magistrados, visando preservar a impessoalidade e o respeito à autoridade do cargo. 

     · Humanidade e Coragem: Um juiz de excelência deve equilibrar a aplicação fria da lei com a sensibilidade para as consequências sociais de suas decisões, agindo com coragem para decidir sem medo de pressões.  

A Independência Olímpica ...

A expressão 'independência olímpica' constitui uma metáfora alusiva ao Monte Olimpo — morada dos deuses na mitologia grega —, sugerindo uma postura de distanciamento, serenidade e elevação frente às paixões e aos conflitos terrenos. Sob essa perspectiva, observa-se prudente considerar: 

      · Neutralidade Absoluta: Refere-se à capacidade do juiz de manter-se acima das partes, da opinião pública e de pressões políticas, decidindo apenas com base na lei e nos fatos. 

     · Isolamento de Influências: Significa que o magistrado deve ser imune a "ruídos" externos e internos, garantindo que seu convencimento seja formado de maneira intangível e transparente. 

      · Garantia Constitucional: No Brasil, essa independência é protegida por garantias como a vitaliciedade (o juiz só perde o cargo por sentença judicial transitada em julgado), a inamovibilidade (não pode ser removido contra sua vontade) e a irredutibilidade de subsídios

   · Pilar Democrático: É considerada um dever institucional do magistrado, sendo essencial para a manutenção do Estado de Direito. 

Essa expressão é utilizada, primordialmente no meio jurídico e intelectual brasileiro, para descrever uma forma de autonomia absoluta, imparcialidade e elevação ética. No cenário jurisprudencial contemporâneo — como observado em recentes discursos no Supremo Tribunal Federal —, o termo refere-se à capacidade de um magistrado atuar com: 

     · Imparcialidade Total: A decisão é tomada sem ceder a pressões externas, sejam elas políticas, sociais ou de grupos de interesse. 

     · Desprendimento: Uma postura de quem não deve explicações a eleitorados ou interesses particulares, focando-se estritamente no dever e na justiça. 

      · Elevação Moral: O termo "olímpica" evoca a ideia de algo superior, majestoso e inabalável, comparável à serenidade atribuída aos deuses do Olimpo ou ao ideal de excelência dos Jogos Olímpicos. 

Frequentemente, ela aparece associada a outras qualidades como: 

      · “conhecimento enciclopédico" e, 

      ·  "tolerância à verdade alheia",

formando o perfil de um julgador ou intelectual que se mantém acima das paixões momentâneas para preservar a integridade de suas convicções. 

Sob essa perspectiva, a presente síntese reflexiva objetiva investigar como tal elevação ética reflete a autonomia do Poder Judiciário. A análise que se segue parte da premissa de que a magistratura deve pautar-se por virtudes que transcendam as paixões conjunturais.

Superadas as notas introdutórias, cumpre destacar a recente manifestação do Ministro Luiz Fux. Ao agradecer as palavras do então Presidente da Corte, Ministro Edson Fachin, o Ministro Fux definiu sua trajetória no Supremo Tribunal Federal como a realização suprema de um 'juiz de carreira'.

Oportunamente, ele destacou que ascender à Corte Constitucional vindo das bases da magistratura representa o maior sonho possível na profissão. Fux dedicou a homenagem ao pai, o advogado Mendel Fux, refugiado do nazismo que o convenceu a rejeitar uma carreira internacional na iniciativa privada para retribuir ao Brasil a educação recebida em instituições públicas, assim manifestando:

"Você deve devolver ao país tudo que o pais fez pela nossa família", recordou.

O ministro rememorou sua posse na presidência da Corte durante o isolamento da pandemia, quando a cadeira destinada aos familiares foi ocupada simbolicamente por um retrato de seu pai. Fux agradeceu a condução de Fachin e a convivência com os pares, afirmando que: "dissenso não é discórdia". E defendeu que:

"a magistratura exige nobreza de caráter e uma "independência olímpica"!

Nesse sentido, as afirmações de que 'o dissenso não é discórdia', aliadas à defesa de que a magistratura exige 'nobreza de caráter' e 'independência olímpica', revelam-se plenamente procedentes. Tal perspectiva, amplamente consolidada na Filosofia do Direito e na ética judicial, fundamenta o papel do magistrado no Estado Democrático de Direito, conforme as seguintes premissas:

  • Dissenso vs. Discórdia: Enquanto o dissenso é técnico e saudável — caracterizando a divergência de opiniões fundamentadas sobre a lei —, a discórdia é de natureza pessoal e destrutiva. O debate de ideias distintas permite ao Tribunal alcançar decisões mais maduras, desde que preserve o respeito institucional.
  • Nobreza de Caráter: O magistrado atua sobre a vida, a liberdade e o patrimônio de terceiros. Sem integridade e ética (a referida nobreza), a aplicação da lei reduzir-se-ia a um mero exercício de poder ou arbítrio.
  • Independência Olímpica: Refere-se ao conceito de que o magistrado deve situar-se acima das paixões políticas, da pressão popular e de interesses particulares. O termo 'olímpica' evoca o distanciamento necessário para o exame imparcial dos fatos, sem a contaminação pelos conflitos das partes.

Em síntese, tais proposições sustentam que o magistrado exemplar é aquele que exerce o dissenso com elegância, mantendo-se firme e preservado de influências externas em prol da garantia da justiça. Afinal, embora a magistratura não seja imune ao erro, deve ser orientada pela busca incessante da retidão!


Por: Roberto Costa Ferreira - 24fev26.

Prof,Pesquisa,Pedagogista,Med-MEng

HILASA-SP-Instit.História Letras Artes

Santo Amaro  - SÃO PAULO - SP.


Nesta oportunidade, destaco o texto que adiciona a presente matéria na página do Facebook.

Dia Internacional das Juízas - Magistratura e Direito: O Magistrado por Excelência e a Independência Olímpica!

Data instituída pela Organização  das  Nações  Unidas (ONU)  em 2021,  destacando a importância da  participação  feminina na  construção de sistemas de justiça mais justos, representativos e inclusivos, o  Dia  Internacional  das  Juízas é celebrado  neste  10 de março, reconhecendo o trabalho das mulheres que atuam no Judiciário.

Consolidada na Filosofia do Direito e na ética judicial, tal perspectiva fundamenta o papel do magistrado no Estado Democrático de Direito. No cenário jurisprudencial contemporâneo — como observado em recentes discursos no Supremo Tribunal Federal —, o termo refere-se à capacidade de o magistrado atuar com imparcialidade total, desprendimento e elevação moral. A expressão 'olímpica' evoca algo superior e inabalável, comparável à serenidade atribuída aos deuses do Olimpo ou ao ideal de excelência dos Jogos Olímpicos.

Consolidada na Filosofia do Direito e na ética judicial, tal perspectiva fundamenta o papel do magistrado no Estado Democrático de Direito. No cenário jurisprudencial contemporâneo — como observado em recentes discursos no Supremo Tribunal Federal —, o termo refere-se à “capacidade de o magistrado atuar com imparcialidade total, desprendimento e elevação moral”.

A expressão 'olímpica' evoca algo superior e inabalável, comparável à serenidade atribuída aos deuses do Olimpo ou ao ideal de excelência dos Jogos Olímpicos. Frequentemente, essa postura aparece associada a atributos como o 'conhecimento enciclopédico' e a 'tolerância à verdade alheia', compondo o perfil de um julgador que se mantém acima das paixões momentâneas para preservar a integridade de suas convicções.

Todavia, tal arquétipo não se observa, predominantemente, no quadro de magistrados que hoje atuam nos Tribunais Superiores desta Nação. Diante desse cenário, apresenta-se a presente análise, orientada pelas considerações que se seguem.

Desse modo, convido a conhecerem da integral matéria que se encontra no meu Blog, bastando para tal acessá-lo, clicando sobre a imagem posta do Youtube.

Por: Roberto Costa Ferreira. 


terça-feira, 3 de março de 2026

EVENTO LÍTEROCULTURAL - LANÇAMENTO DO LIVRO: O CANTADOR DE HISTORIAS e Demais Autoras Presentes!


Penúltimo dia do mês findo – 27 de fevereiro – e atendendo ao honroso convite da Associação Comercial de São Paulo, estive presente no evento líterocultural, conjuntamente a outros membros do HILASA – Instituto de História, Letras e Artes de Santo Amaro que, na oportunidade, celebramos o lançamento de Livro "O Cantador de Histórias", de autoria de Fredi Jon, com a apresentação musicada e bem à moda da seresta, de clássicos em voz e violão.


Um evento que se estendeu por aproximadas três horas, pleno de manifestações artísticas, sendo certo que tais comunicações humanas que servem-se de linguagens específicas objetivando transmitir ideias, emoções que jorraram à cântaros e visões de mundo mediante artes auditivas e literárias, compreendendo músicas tocadas – violão e saxofone - e cantadas pelo autor Fredi Jon e demais expressões de literatura – poesia, contos, cultura popular e prosa – diante das presenças marcantes das expoente máximas presentes e autoras.


A professora Dra. Inez Garbuio Peralta, tão valiosa Inez com todo seu embasamento explicando e declamando detalhes preciosos de seus livros, nesta oportunidade referindo-se às suas emoções e seu gosto por escrever com objetividade. No primeiro, esclarecendo dúvidas e destacando o crescimento econômico de Santo Amaro e sua perda de autonomia, referindo o destacado contexto cultural diferente de todos os demais bairros, dizendo de sua angústia com relação às suas dúvidas em relação a este município que guarda esta grandeza por ter sido município.


Disse de outra história acerca do dito popular, segundo o qual, o Cemitério da Consolação era o Cemitério mais antigo de São Paulo. Então, estudando, descobriu que não ... O Cemitério Municipal de Santo Amaro é o Cemitério Municipal mais Antigo da Cidade de São Paulo! Então, quis conhecer dessa “Casa dos Mortos” construída e embelezada pelos vivos! Resultou no livro “O Cemitério de Santo Amaro”, basicamente construído com documentos resultantes dos documentos e documentação remanescente do dito Cemitério. Referiu-se, na oportunidade, especialmente a Júlio Guerra e monumentos produzidos por tal artista!


Outro questionamento que tentou resolver refere-se ao “Enigma do Borba Gato”, momento no qual se diz que “todo mundo de Santo Amaro descente de Borba Gato”. Sua inquietação levou-a pesquisar acerca do personagem, sua origem familiar, descendência e inverdades históricas. Destacou acerca da introdução do livro e perseguição dos passos do personagem, sua passagem pela Penha de França com destino de à seu sogro Fernão Dias Paes Leme e seu destino a Minas Gerais. Por tal e diante de cada desafio, escreve e destaca as verdades pertinentes.

Igualmente a autora e professora Andrea Sousa contando preciosidades de suas composições literárias e razões para escrever, em segunda participação no evento, momento que disse dos livros, literatura, sua origem e infância. Disse mais, da aprendizagem, do ler e a "caçar" livros. Disse da Toinha dos Inhamuns, da “Menina que Buscava Palavras”, tema de TCC e Teatro de Fantoches. Continuou, ainda acerca das "Bonecas do Pé de Manga" e, como "reinventar histórias", sempre "correndo atrás dos Livros"!


Disse ainda da fala do pai: "Toinha, tó! Sabendo que não viria repreensão em razão do chamamento "Toinha", resultando no merecimento do seu primeiro Dicionário. E neste, soube da significação de palavras magníficas e inesquecíveis como: "Agregar", "gradativo", "hombridade", "ética", "honestidade", "empatia" e "resiliência"! Contou de suas outras obras, terminando por ler um de seus cinco poemas, homenageando ao amigo Leonardo Ugolini! Ressaltou, por fim, dizendo das suas "setenta e duas peripécias" donde conta histórias, referindo-se especialmente a Raul Seixas e ao personagem Tonhão, destacando o surpreendente "choro coletivo" no lugar do esperado aplauso. Assim manifestou-se Andrea, a Contadora de Histórias! E, em sequência, também, a Sra. Eunice Barroso que muito disse de seu pai, segundo relatado em obra já editada.   


Considere-se que um evento com esse formato, cumulado com a apresentação de clássicos da literatura de outros demais autores presentes é, na essência, uma celebração da continuidade literária. Ele não apenas apresenta uma obra nova, mas a coloca em diálogo direto com a tradição e o cânone da literatura, já firmada inclusive além território. Aqui trago então, onde está o significado desse evento dividido por camadas:

     1) O Simbolismo da "Passagem de Bastão" - Ao unir o lançamento de um livro inédito à apresentação de clássicos, o evento cria uma ponte temporal. Ele sugere que a nova obra não nasce no vácuo, mas sim como herdeira de uma linhagem intelectual. É um reconhecimento de que a literatura é um organismo vivo, onde o novo se alimenta do eterno. 

       2) Validação e “Prestígio” - Quando três autores estabelecidos apresentam seus clássicos no mesmo palco que um autor estreante (ou uma obra nova), ocorre um fenômeno de chancelamento: 

              · Para o autor que lança: Recebendo o "selo de qualidade" e a atenção do público que já admira os clássicos; 

             · Para os autores dos clássicos: Que demonstram generosidade intelectual e mantêm suas obras vibrantes e relevantes para as novas gerações. 

       3) Dinâmica do Evento - Diferentemente de um lançamento comum (que pode ser apenas uma sessão de autógrafos), este formato é uma "curadoria artística". Ele se transforma "em um sarau ou painel literário”, onde o público ganha, manifestando-se em: 

              · Contexto: Entender as referências que moldaram o novo livro; 

             · Performance: A "apresentação" de clássicos geralmente envolve leitura dramática, análise ou declamação, elevando o nível cultural da experiência, fato consagrado nesta realização.

Desse modo, partimos para um breve resumo do significado, em razão do realizado: 

          4)  Aspecto Cultural - Significado: 

              · Fomento à leitura e democratização do acesso a textos fundamentais. 

          5)   Aspecto Social, significando: 

              · Fortalecimento da comunidade literária e networking entre gerações de escritores. 

          6)  Aspecto Intelectual, no seguinte significado: 

              · Exercício de intertextualidade (que provindo da semiótica clássica, sendo o que transforma papel e tinta em universos inteiros (muito bem manifestado pelas professoras presentes), como um livro conversa com o outro, seus entendimentos, expressões, significados e significantes ).

ü  Significante: A forma física, a “casca” da palavra. São as letras impressas, a sonoridade da frase (no conjugado do canto do autor) mesmo o objeto o livro, sua razão de existir!

ü  Significado: Materializando-se no conceito, a imagem mental e a interpretação que aquela palavra, aquela narrativa, aquele canto, desperta em você!

É de se destacar que, nos livros, essa dualidade funciona de forma fascinante, tendo em vista: 

          1) A Estética da Linguagem: Oportunidade que o autor escolhe o significante (o som da palavra “melancolia”, quando expressada nas canções, por exemplo) não apenas pelo sentido, mas pelo peso e  ritmo que ele traz ao texto, em razão da obra escrita, o livro. 

          2) O Papel do Leitor: Enquanto o significante é fixo no papel, o significado é fluido. O que um livro “quer dizer” muda conforme a bagagem cultural de quem lê! 

       3) O Livro como Objeto: Para colecionadores, o livro físico (capa, papel, tipografia) é um significante que agrega valor artístico antes mesmo da leitura do conteúdo.

Basicamente, o livro é o veículo (que significante) transporta a experiência subjetiva ( o significado) do autor até a sua imaginação. E quanta! E quantas!

É de se destacar, em apartada nota que, esse tipo de evento é muito comum nos seguintes locais: 

           ü  em academias de letras

           ü  centros culturais e feiras literárias

           ü  em associações e grêmios de cultura,

que buscam oferecer uma experiência mais profunda do que o simples consumo comercial de um livro.

A oportunidade resultou significativa? Certamente que sim! Unir o lançamento de um livro à música e ao canto, reunindo parceiros ilustres e autores consagrados promove o que chamo de experiência artística integrada ou interdisciplinar. E tal combinação não é apenas um evento social, mas uma oportunidade digna por diversos motivos, dentre os quais destaco: 

             · Profunda ampliação da Experiência Sensorial, transformando a leitura em uma experiência viva e multissensorial; 

        · Performance e Significado, mostrando que a literatura e a música são linguagens que se complementam permitindo contar uma história mais completa;

           · Engajamento e Memória, momento que tais eventos que misturam linguagens artísticas são mais memoráveis. 

            · Fortalecimento Cultural – Essa integração é vista e consagrada em enormes festivais tais como Bienal do Livro e Festas literárias, momento que a literatura se funde a melodias e movimentos para celebrar a diversidade cultural e impulsionar o Pilar da Cultura.

Magistral e oportuna realização!



Por: Roberto Costa Ferreira - 28fev26.
Prof,Pesquisa,Pedagogista,Med-MEng
HILASA-SP-Instit.História Letras Artes
Santo Amaro - SÃO PAULO - SP.