Tal levantamento em pesquisa realizei ao final de 2020 e início de 2021, tendo distribuído para os meios convenientes, imediato à revisão, então realizada. Portanto, às condições de preguiça de pensar, emburrecimento e falta de interesse, inicio com a indagação:
- Por que muitos preferem depender da opinião de terceiros a ter que raciocinar e tomar decisões por si mesmos?
Estudiosos, pesquisadores e antropólogos já apresentaram evidências de que estaríamos vivendo na chamada "era da burrice", onde a inteligência humana efetivamente começou a decair. Segundo o antropólogo inglês Edward Dutton, o emburrecimento não é um simples desvio momentâneo, mas, sim, um fenômeno real.
Responsável pela revisão das principais pesquisas sobre o assunto, Dutton afirma que, "se essa regressão seguir o ritmo atual, a população de diversos países terá um Quociente de Inteligência (QI) abaixo de 80 pontos já na próxima geração de adultos, o que representa um nível abaixo da média".
Esclareço que tal citação atribuída a Edward Dutton está correta em termos de autoria e contexto de suas teorias, tendo sido amplamente replicada em análises sobre o declínio do QI. No entanto, a validade científica da previsão de que o QI cairá abaixo de 80 pontos na próxima geração é altamente controversa e criticada pela comunidade acadêmica, ao que concordo.
A afirmação se insere no contexto do trabalho de Edward Dutton, antropólogo britânico e um dos principais expoentes da teoria do "Efeito Flynn Reverso". Sua tese central, detalhada no então recentemente lançado "At Our Wits' End" (2018), defendendo que:
Declínio do QI: Após décadas de aumento constante (o Efeito Flynn), as pontuações de QI começaram a cair em países desenvolvidos, como Finlândia e França, desde o final do século XX.
Causa Disgênica: Dutton argumenta que a seleção natural se inverteu, sugerindo que pessoas com menor QI estariam tendo mais filhos, o que reduziria a média genética da população.
Projeção Extrema: A previsão de uma queda para níveis abaixo de 80 pontos baseia-se em uma extrapolação linear desses declínios recentes.
Críticas e Limitações
A maioria dos especialistas em psicometria e inteligência aponta falhas graves nessas afirmações, assim:
- Fatores Ambientais: Estudos mostram que o declínio recente é provavelmente causado por fatores ambientais — como mudanças no sistema educacional, nutrição e tecnologia — e não por genética.
- Extrapolação Indevida: É matematicamente arriscado projetar que uma tendência de queda de 2 a 3 pontos por década continuará até atingir 80 pontos em uma única geração.
- Vieses Metodológicos: Críticos argumentam que os estudos de Dutton possuem vieses de seleção e que a inteligência humana é complexa demais para ser reduzida apenas a uma pontuação de teste que pode estar ficando "obsoleta" para os novos tempos.
Apesar de não haver pesquisas brasileiras específicas sobre essa teoria em particular, posso afirmar que o processo de emburrecimento, no sentido educacional, já está instalado por aqui, senão vejamos os dados seguintes que,de acordo com dados da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, os alunos do ensino médio tiveram o pior desempenho da história em 2021. O nível de conhecimento em matemática:
de 97% dos alunos do 3º ano é equivalente ao da 7ª série do ensino fundamental;
fato que representa uma defasagem de seis anos de aprendizado. Em português, a situação também não é nada boa, pois quatro em cada dez alunos possuem conhecimento abaixo do básico.
Como se depreende, o ato de pensar se tornou tão trabalhoso que grande parte das pessoas parece estar constantemente em modo "standby" e só consegue "ligar" o cérebro mediante algum estímulo externo. É cada vez mais difícil encontrar pessoas ávidas por conhecimento, que se interessem verdadeiramente por uma conversa ou que simplesmente prestem atenção por mais do que dez minutos.
Embora a tecnologia e a automaçãoacelerem muitos processos e estejam presentes em praticamente tudo o que fazemos, viver em um mundo onde a capacidade cognitiva parece regredir certamente nos faz retroceder em inúmeros aspectos. Cabe a nós, por exemplo:
a responsabilidade de fazer boas escolhas,
principalmente em um ano eleitoral, em que pessoas de caráter duvidoso não economizarão nas "fake news" e em todo tipo de estratégia enganadora.
O que esperar do futuro de um país que tem preguiça de pensar, cujos jovens já apresentam anos de defasagem no ensino acadêmico e que demonstram muito mais interesse em brigar por política do que de fato entendê-la?
É preciso refletir sobre a questão e, quanto antes, lutar para mudar o rumo que nossa sociedade vem trilhando. Mesmo porquê, na evolução desta abordagem e em razão do conteúdo desenvolvido no vídeo acima proposto, a "atrofia da atenção" (ou atrofia cognitiva)não é uma doença médica clássica, mas um termo usado para descrever:
o enfraquecimento da capacidade de concentração e,
o foco prolongado devido ao estilo de vida digital moderno.
Considerando a possível soberania cognitiva na era da Inteligência Artificial, dita IA, temos que, assim como um músculo que diminui de tamanho quando não é exercitado, as redes neurais ligadas à atenção podem se tornar menos eficientes quando dependemos excessivamente de tecnologias que fazem o "trabalho mental" por nós.
Principais Causas e Mecanismos
• Terceirização Cognitiva (Cognitive Offloading): Ocorre quando delegamos funções como memória, raciocínio lógico ou orientação espacial para algoritmos e dispositivos (como o uso constante de GPS ou buscas imediatas no Google), reduzindo a ativação de circuitos neurais importantes.
• Fragmentação do Foco: O consumo constante de conteúdos curtos (vídeos rápidos, redes sociais) e as interrupções por notificações treinam o cérebro para reagir a estímulos imediatos, prejudicando a "atenção sustentada" necessária para ler um livro ou realizar tarefas complexas.
• Inteligência Artificial como "Muleta": O uso da IA para substituir o pensamento crítico, em vez de apenas estendê-lo, pode levar a um empobrecimento dos processos cognitivos e à perda da autonomia mental.
Sinais da "Atrofia" no Cotidiano
• Baixa Tolerância ao Tédio: Necessidade impulsiva de checar o celular em qualquer momento de silêncio ou espera.
• Dificuldade de Foco Profundo: Incapacidade de manter a concentração em uma única atividade por mais de alguns minutos.
• Memória de Curto Prazo Reduzida: Dificuldade em reter informações simples que antes seriam facilmente memorizadas.
Como "Exercitar" a Atenção
Para combater esse processo, especialistas sugerem fortalecer a reserva cognitiva através de:
• Prática de Atenção Sustentada: Ler textos longos em papel e realizar tarefas sem interrupções digitais.
• Tédio Fértil: Permitir momentos de silêncio e ócio sem telas, o que estimula a criatividade e a reflexão interna.
• Uso Crítico da Tecnologia:Utilizar ferramentas digitais como suporte, e não como substitutas do esforço mental inicial.
Portanto, às considerações propostas, é possível depreender que o uso excessivo de IA pode gerar uma atrofia cognitiva. E aqui reforço os pontos principais que se extraem, resumidamente, momento que tendo em vista a Analogia Biológica, compara-se a mente a um músculo; a falta de "exercício" mental (devido a automação da dita IA) leva ao enfraquecimento das funções cerebrais.
Idem àDependência Tecnológica, situação que tal conveniência da IA cria um risco de delegarmos tarefas intelectuais essenciais, o que prejudica nossa autonomia. Em razão da Eficiência da Atenção, o foco principal do dano reside nas redes neurais da atenção, sugerindo que a IA pode nos tornar mais dispersos ou menos capazes de concentração profunda.
Ibidem às condições de Soberania Cognitiva, oportunidade que o termo sugere que estamos perdendo o "governo" sobre nossa própria capacidade de pensar e decidir.
Lamentável!
Por: Roberto Costa Ferreira - 30mar26. Prof.,Pesquisa,Pedagogista,Med-MEng HILASA - SP-Instit.História Letras Artes UNIFESP - Univ.Federal de São Paulo Santo Amaro - SÃO PAULO - SP.
Patrono
da cadeira 29 da Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto (Alarp), ribeirão-pretano Abelardo Pinto, o palhaço “Piolin”
Essa
data se consolidou como uma homenagem a Abelardo Pinto, homem que ficou
conhecido por sua trajetória como o palhaço Piolin. Portanto, em 27 de
março, nesta sexta-feira, é celebrado o "Dia Nacional do Circo",
uma homenagem ao patrono da cadeira 29 da Academia de Letras
e Artes de Ribeirão Preto (Alarp), o ribeirão-pretano Abelardo
Pinto, o palhaço “Piolin”, que nasceu no mesmo dia de 1897 e morreu em
setembro de 1973, aos 76 anos, de insuficiência cardíaca.
É considerado
o grande representante do meio circense, onde destacava-se pela
grande criatividade cômica, além da habilidade como ginasta e
equilibrista. Ele que viveu o auge de sua carreira durante a década de
1920. O circo moderno, da forma como conhecemos, estabeleceu-se na
Inglaterra, em meados do século XVIII. É certo e de se considerar que os 3
tipos de palhaço, não se ignorando os principais tipos clássicos da palhaçaria,
que são:
o
Palhaço Branco, o Palhaço Augusto, e o Palhaço Contra-Augusto.
Desse
modo, trago das minhas memórias o presente artigo que é um recorte atualizado
da pesquisa (Trans)Formações do Palhaço:
História
dos Tipos e Técnica na Arte da Palhaçaria (2014). É através da qual a
investigação buscou compreender a constituição da figura do palhaço, por meio
de diversas referências.
Os
principais tipos clássicos, especialmente a dupla cômica 'Branco e
Augusto" e o "Contra-Augusto", identificando algumas
de suas características. Acredita-se que a diversidade encontrada em diversos
contextos influenciou as concepções de palhaço presentes na contemporaneidade.
Assim temos que no universo da palhaçaria, o Palhaço Branco (ou Carabranca)
representa:
a autoridade,
a ordem e o intelecto.
Ele é o contraponto clássico ao Augusto (o palhaço brincalhão e
desastrado). E aqui estão suas principais características:
Aparência: Usa maquiagem branca
cobrindo todo o rosto, sobrancelhas desenhadas e, tradicionalmente, roupas
luxuosas e brilhantes (o "fraque").
Personalidade: É sério, elegante, por vezes
arrogante e autoritário. Ele se vê como o "mestre" da situação.
Papel
na Dupla: Ele
é o "escada". É quem propõe o jogo, dá as ordens e tenta manter a
lógica, servindo de alvo para as subversões e trapalhadas do Augusto.
Simbolicamente, tal personagem representa o
mundo adulto, as regras sociais e a repressão, enquanto o Augusto representa a
liberdade e a criança interior. Embora pareça o "vilão" ou o
chato da história, ele é essencial: sem a ordem imposta pelo Branco, o caos do
Augusto não teria contra o que se rebelar.
Já o Palhaço
Augusto é o contraponto perfeito ao Branco, representando a liberdade,
o caos e a humanidade em sua forma mais pura. Enquanto o Branco é
a ordem, o Augusto é o erro que nos faz rir!
Aqui
estão os pilares que o definem:
Aparência: Usa o clássico nariz
vermelho (a menor máscara do mundo), roupas exageradas ou desalinhadas,
sapatos gigantes e maquiagem colorida que realça as expressões.
Personalidade: É ingênuo, extravagante,
rebelde e muitas vezes inoportuno. Ele não tem filtros e age por impulso, como
uma criança eterna.
O
"Espírito do Erro": O Augusto é o mestre em falhar. Ele
tenta fazer as coisas certo, mas sua lógica é diferente da convencional. O riso
surge da sua tentativa honesta (e desastrada) de lidar com o mundo.
Simbolicamente, ele representa o povo, a
quebra das regras sociais e a resiliência. Não importa quantas vezes ele caia
ou seja repreendido pelo Branco, ele sempre se levanta e tenta de
novo!
Na
dupla, ele é
quem subverte as ordens do Branco, transformando uma tarefa simples em uma
confusão monumental!
Então,
o Palhaço Contra-Augusto nos diz (também chamado de Trombo ou Terceiro) ser
o elemento que completa o trio clássico, representando o equilíbrio e a
mediação. Se o Branco é a ordem e o Augusto é o caos, o Contra-Augusto nos
diz que:
A
união é necessária: Ele
serve como a ponte entre os dois extremos. Muitas vezes ele é o assistente do
Branco que, no fundo, torce pelo Augusto ou acaba sendo a vítima das
trapalhadas de ambos.
O
erro é coletivo: Enquanto
o Branco pune e o Augusto erra, o Contra-Augusto aparece para tentar consertar
a situação, mas geralmente acaba piorando tudo, mostrando que a confusão é
contagiosa.
A
lógica da "escada dupla": Ele funciona como um segundo
"escada". Ele pode ser mais inteligente que o Augusto, mas não
tem a autoridade do Branco.
Em
resumo, o Contra-Augustoé
o personagem que humaniza o conflito, mostrando que nem tudo é preto
no branco (ou Branco no Augusto) e que há sempre um
terceiro ângulo para a mesma piada!
Com
essa contribuição é possível, portanto, refletir sobre como a arte da
palhaçaria vem se desenvolvendo culturalmente. Neste sentido, foram
expostos diversos e distintos tipos cômicos presentes em algumas sociedades; tipos
cômicos sagrados pertencentes a diferentes tribos e, mesmo os bufões e
bobos da corte da Idade Média.
No
estudo acima, em referência, buscou-se ainda, trazer os principais tipos
clássicos de palhaços, a dupla cômica ‘Branco e Augusto’ e o “Contra-Augusto”,
identificando suas características específicas. Acredita-se que toda essa
diversidade influenciou as concepções de palhaço presentes na
contemporaneidade.
Por
oportuno, o chamado “circo moderno” ou "circo tradicional",
ainda mantém o picadeiro e uma estrutura em formato circular, com
números que geram tensão na plateia. Inferiu-se que essa forma clássica de
se referir às artes circenses, surgiu por volta de 1770, mais
precisamente em 1779, com o oficial da cavalaria britânica "Philip
Astley" (1742 - 1814).
O picadeiro
de circo oficial mede 13 metros devido a uma descoberta de Astley. Ele
concluiu que, se amarrasse a ponta de uma corda de 13 metros em um mastro
fixo e a outra ponta em um cavalo, teria, assim, um ângulo circular perfeito
para conseguir realizar a façanha de permanecer montado em pé no lombo de um
cavalo em movimento.
Vários
números com cavalos eram apresentados no espetáculo do oficial Astley e a
composição estrutural era completamente militar, com uso de uniformes,
rufar de tambores e utilização de armas, porque apenas com o hipismo o
espetáculo se tornava monótono (Bolognesi, 2003). Assim sendo, Astley,
ao perceber a importância da dinâmica em seus números para atrair a atenção do
público, decidiu inserir em seus espetáculos diversas acrobacias, tais
como:
[...] volteios
de cavalos livres, que obedeciam à voz do comando de um treinador,
executando evoluções, com ou sem obstáculos,
cavalos
montados por acrobatas que
executavam saltos, pirâmides e outras evoluções em seu dorso e,
Todos
esses elementos agregados ao espetáculo de Astley geraram um maior
interesse do público. O próprio Astley dirigia
e apresentava o espetáculo, criando, assim, a figura do mestre de cerimônia ou
mestre de pista, que ainda é tão presente nos espetáculos tradicionais de
circo.
Originalmente, o
mestre de pista era o domador dos animais e também o diretor dos números
equestres. Com o tempo, assumiu a função de mestre de cerimônia,
que hoje é conhecido como apresentador. O Mestre de Pista
também participava das entradas circenses, quase sempre trazendo a lucidez à
cena, característica ausente no palhaço. Antes mesmo de se fixar a dupla
cômica, o Mestre de Pista se transformou em uma espécie de soberano do Clown
(Bolognesi, 2003, p. 68).
De
acordo com Mário Fernando Bolognesi (2003), o circo
moderno, portanto, é resultado da conjunção de dois universos espetaculares até
então distintos:
de
um lado, a arte equestre inglesa, que era desenvolvida nos
quartéis;
de
outro, as proezas dos saltimbancos.
Essa
convenção do espaço cênico, no qual acontecem os atos circenses, assim como sua
composição espetacular, deu origem ao que se chama “circo moderno”. Tal
estrutura formal ganhou o mundo rapidamente, primeiramente em toda a Europa,
e depois no mundo.
Segundo Silva
(2008), o
circo moderno chegou ao Brasil no final do século XVIII, graças à migração
das famílias circenses europeias e norte-americanas, as quais percorreram todo
o país. Essas trupes assumiram uma característica nômade e realizavam
constantes turnês por onde passavam, adaptando-se de acordo com cada região,
cultura ou país.
No
nosso contexto, Carlos viu aí a chance de uma propaganda gratuita e resolveu se
chamar assim, Biriba.
Atuou até os 82 anos (época em que era o palhaço mais velho em atividade
no país). Ficou tão conhecido pelo personagem que acrescentou o nome a seu
próprio documento de identidade.
Abelardo
Pinto, o Piolin (1897–1973), foi
um dos maiores palhaços da história doBrasil e é considerado o "Rei
do Circo" no país. Sua importância é tamanha que o Dia
Nacional do Circo (27 de março) foi instituído em homenagem à data de seu
nascimento. Piolin nasceu em Ribeirão Preto/SP, dentro de um
circo. Filho de artistas circenses, ele começou sua carreira como acrobata,
contorcionista e equilibrista antes de se tornar palhaço.
O
Apelido: "Piolin"significa barbante em espanhol. Ele recebeu esse nome de
colegas espanhóis por ser muito magro e ter pernas longas e finas. A Consagração Modernista
ocorreu durante a década de 1920, momento que Piolin foi
"descoberto" e aclamado por intelectuais do Movimento
Modernista, como Tarsila do Amaral e Mário de Andrade, que o viam
como o exemplo perfeito do artista popular genuinamente brasileiro.
Nesse
contexto, o Circo Piolin, que por mais de 30 anos, ele
manteve seu próprio circo em São Paulo, especialmente no Largo
do Paissandu, tornou-se um ponto de encontro fundamental para a cultura
circense!
Fã
Ilustre, o presidente Washington Luís era um grande admirador de
Piolin e costumava
frequentar suas apresentações. Em razão do pilar da Educação seu
grande sonho era criar uma escola de circo. Isso se concretizou em
1978, após sua morte, com a fundação da Academia Piolin de Artes Circenses em
São Paulo.
Reconhecido
mundialmente, Piolin foi considerado por muitos, inclusive por
artistas estrangeiros que visitavam o Brasil, como o melhor palhaço do mundo
em sua época devido à sua agilidade física e criatividade cômica. Ele veio
a faleceu em 1973, aos 76 anos, deixando uma marca indelével na
cultura popular brasileira e servindo de inspiração para gerações de artistas
que vieram depois.
Também
e por especialíssima deferência destaco meu anterior amigo e irmão, "pisante do andar
superior", Waldemar Seyssel (1905–2005), conhecido como Arrelia, que
foi um dos mais famosos e influente palhaço, ator e humorista brasileiro do
século XX. Pioneiro na televisão, consagrou-se no circo e no programa
"Cirquinho do Arrelia", famoso pelo bordão: "Como vai,
como vai, como vai?", marcando a infância de gerações.
Acrescento
pois, os principais destaques sobre Arrelia:
Ícone
Popular: Nascido no Paraná, Arrelia consolidou o palhaço brasileiro
clássico, focando em pantomimas e comédias.
Carreira
na TV: Foi um
dos primeiros palhaços a ter sucesso na televisão brasileira, com o "Cirquinho do
Arrelia", transmitido por emissoras como a TV Tupi e Record, onde
atuava com seu fiel parceiro, "o palhaço Pimentinha".
Origem
do Apelido: O
nome "Arrelia" surgiu na infância devido ao seu jeito "arreliado"
(irritante/levado), oficializando o nome em 1927 após uma substituição
improvisada no picadeiro.
Família
de Circo: Veio
de uma linhagem tradicional, sendo neto de Júlio Seyssel (do Circo
Charles Brothers) e filho de Ferdinando Seyssel, o palhaço Pinga-Pulha.
Legado: Faleceu aos 99 anos em
2005, no Rio de Janeiro, deixando uma autobiografia e sendo lembrado como
"um mito da cultura popular brasileira".
A
esses personagens, de quem pouco se sabe, quase às raias do esquecimento, resta
o fato de que o Dia Universal do Palhaçoserá comemorado
em 10 de dezembro, uma quinta-feira. Embora essa seja a data
principal dedicada especificamente à figura do palhaço no Brasil, outras
celebrações relacionadas acontecem ao longo do ano:
Dia
Nacional do Circo: 27 de março
(uma sexta-feira em 2026). A data homenageia o nascimento do palhaço
brasileiro Piolin.
Semana
Internacional do Palhaço: Celebrada
anualmente entre 5 e 12 de outubro.
Desfile
dos Palhaços do Rio Vermelho (Salvador): Em 2026, este tradicional evento cultural
está programado para o dia 31 de janeiro.
Para
o bem das memórias e reservas históricas o Largo do Paissandu, no
centro de São Paulo, consolidou-se como o "berço do circo" brasileiro por ter sido,
durante décadas, o principal ponto de convergência física e social de
artistas, empresários e companhias circenses. Abaixo, detalho como
essa história se desenrolou:
1.O
Ponto de Encontro da Categoria:
·No
início do século XX, o Largo era o lugar onde os artistas se reuniam
para trocar informações e buscar emprego. Esse fenômeno era tão forte
que a região funcionava como um "escritório a céu aberto" do
circo no Brasil.
Artistas
que chegavam de viagens ou companhias que precisavam contratar novos números
sabiam que encontrariam quem precisavam nos arredores do Paissandu.
2.A
Era de Ouro com Piolin:
·Embora
diversos circos tenham passado por ali desde o final do século XIX, o
ápice ocorreu na década de 1920;
·Temporadas
Prolongadas: O Circo
Alcebíades, que tinha Piolin como sua principal estrela, permaneceu
montado no Largo por três anos consecutivos.
·Prestígio
Cultural: Foi
nesse local que Piolin recebeu o reconhecimento dos intelectuais
modernistas e de figuras políticas, como o presidente Washington
Luís, transformando o circo em uma atração de elite e massa
simultaneamente.
3.Fatores
Geográficos e Sociais:
·Acessibilidade: Na época, o Largo, quase
ao início da Avenida São João, era um local de fácil acesso e grande
circulação, situado entre ruas importantes como a São João, Ipiranga e a Rio
Branco.
·Tradição
Popular: A
presença da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos já
tornava o local um ponto de resistência e manifestações culturais negras e
populares, o que favorecia a instalação de espetáculos democráticos como o
circo.
4.Legado
Atual:
·Centro
de Memória do Circo
- A importância histórica é tão grande que hoje, na Galeria Olido (de
frente para o Largo),funciona o Centro de Memória do Circo.Inaugurado
em 2009, o centro preserva mais de 80 mil itens, incluindo figurinos
e fotos originais de Piolin, mantendo viva a conexão do Paissandu com
a arte circense.
A figura
do palhaço, como entretenimento moderno, não existe na Bíblia.O termo é usado metaforicamente
em contextos contemporâneos para criticar a superficialidade no púlpito,
alertando contra a transformação da igreja em picadeiro e a substituição da
pregação daPalavra por entretenimento. O foco bíblico é a
seriedade do evangelho ...
A
Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia
Criativa, promove aSemana do Circo, de 22 a 30 de
março, com diversas atrações circenses até o final do mês. A programação
ocupa mais de 15 espaços públicos da prefeitura e homenageia o Dia do
Circo, comemorado em 27 de março. A programação traz diversos
nomes tradicionais do circo e animaSão Paulo com eventos
gratuitos e livres para todos os públicos.
Por
fim, cavando masmorras ao vício e erguendo templos à virtude, proponho, nesta
oportunidade uma placa comemorativa, cujo texto clássico e solene,
direto e atemporal, promove referido local, assim:
MEMÓRIA E PATRIMÔNIO:
O BERÇO DO CIRCO BRASILEIRO
Largo do Paissandu
“Para o bem das memórias e reservas
históricas, este solo é consagrado como o epicentro da arte circense no Brasil.
Em celebração ao Dia Nacional do Circo, rendemos homenagem à
proeminente linhagem de mestres que aqui floresceu.
Neste picadeiro a céu aberto, a
genialidade de Abelardo Pinto (Piolin) lançou as bases de uma
identidade nacional, a qual se sucederam outros ícones de igual grandeza,
como Valdemar Seyssel (Arrelia).
Do riso de Piolin à alegria
de Arrelia, o Largo do Paissandu permanece como o coração pulsante de
uma tradição milenar, preservando para as futuras gerações a alma e a
história do circo brasileiro”.
Arrelia (à esquerda) e Pimentinha, figuras icônicas da televisão brasileira - décadas 1950 e 1960.
Texto proposto e publicado no Facebook, na mesma data:
Em celebração ao Dia
Nacional do Circo e em homenagem a Abelardo Pinto, o palhaço 'Piolin' — patrono
da cadeira 29 da Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto (ALARP) — Santo
Amaro se põe em festa!
E
não sem razão. Neste 'picadeiro a céu aberto', somos agraciados pela verdadeira
palhaçaria. Diferente da 'palhaçada' — termo por vezes usado para brincadeiras
aleatórias —, a palhaçaria é uma disciplina artística que exige
autoconhecimento, vulnerabilidade e improviso. Ela revela a técnica e o estudo
da linguagem do palhaço, personificada no 'Contra-Augusto': o personagem que
humaniza o conflito, mostrando que nem tudo é 'preto no branco' (ou Branco no
Augusto) e que sempre existe um terceiro ângulo para a mesma piada.
A
partir dessa contribuição, é possível refletir sobre como a palhaçaria se
desenvolve culturalmente e agrega valor a essa representação. Exemplo vivo
dessa evolução é o ator, diretor e palhaço Camilo Torres, que dá vida ao
'doce Pirulitus'. Considerado um dos grandes representantes do
meio circense na atualidade de nossa cidade, Camilo destaca-se pela
criatividade cômica e pelo domínio técnico.
Atuante
no cenário de São Paulo, ele transita entre o teatro, a mímica e a
linguagem do palhaço, levando sua arte a saraus e Casas de Cultura. Camilo
Torres é, acima de tudo, um digno representante da nobre e necessária arte de
fazer rir!
Estendo
tal homenagem ao digno artista e convido para mais saberem deste relevante
conteúdo, acessando o blog, alternativamente, clicando sobre a imagem adiante.
O baiano Antonio Frederico de Castro Alves (1847-1871), apesar de sua morte precoce, é considerado um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos. De formação cultural sofisticada, construiu sua poesia sobre temáticas eminentemente brasileiras, alcançando uma admirável compreensão da alma popular.
Nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, da Academia Brasileira de Letras por escolha do fundador Valentim Magalhães.
Era filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos, e, por esta, neto de um dos grandes heróis da Independência da Bahia.
Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para a capital, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro Barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia. Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se finalmente na Faculdade de Direito em 1864.
Cursou o 1º ano em 1865, na mesma turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos. Em 1866, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou apaixonada ligação amorosa com atriz portuguesa Eugênia Câmara, dez anos mais velha, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração. Escreveu o drama Gonzaga e, em 1868, transferiu-se para o sul do país em companhia da amada, matriculando-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara.
Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi, afinal, amputado no Rio, em meados de 1869. Sua saúde, que já se ressentira de hemoptises desde os dezessete anos, quando escreveu “Mocidade e Morte”, cujo primeiro título original era “O tísico”, ficou definitivamente comprometida.
De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 1870 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a tuberculose. Em novembro, saiu seu primeiro livro, Espumas flutuantes, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores.
Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora italiana Agnese Trinci Murri. Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior empresa a que se propusera, o poema Os escravos, uma série de poesias em torno do tema da escravidão.
Ainda em 1870, numa das fazendas em que repousava, havia completado A Cachoeira de Paulo Afonso, que saiu em 1876, e que é parte do empreendimento, como se vê pelo esclarecimento do poeta: “Continuação do poema Os escravos, sob título de Manuscritos de Stênio.”
Duas vertentes se distinguem na poesia de Castro Alves: a feição lírico-amorosa, mesclada de forte sensualidade, e a feição social e humanitária, em que alcança momentos de fulgurante eloquência épica. Como poeta lírico, caracteriza-se pelo vigor da paixão, a intensidade com que exprime o amor, como desejo, frêmito, encantamento da alma e do corpo, superando o negaceio de Casimiro de Abreu, a esquivança de Álvares de Azevedo, o desespero acuado de Junqueira Freire.
A grande e fecundante paixão por Eugênia Câmara percorreu-o como corrente elétrica, reorganizando-lhe a personalidade, inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituem o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas.
Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século XIX, Castro Alves, na linhagem de Victor Hugo, um dos seus mestres, viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista, o que lhe valeu a antonomásia de “Cantor dos escravos”.
A sua poesia se aproxima da retórica, incorporando a ênfase oratória à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas e espirituais se encontram na eloquência dos poetas. Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade.
Dele ressalta a figura do bardo que fulmina a escravidão e a injustiça, de cabeleira ao vento. A dialética da sua poesia implica menos a visão do escravo como realidade presente do que como episódio de um drama mais amplo e abstrato: o do próprio destino humano, presa dos desajustamentos da História.
Encarna as tendências messiânicas do Romantismo e a utopia libertária do século. O negro, escravizado, misturado à vida cotidiana em posição de inferioridade, dificilmente se podia elevar a objeto estético, o que ele alcançou, no entanto, numerosas vezes. Surgiu primeiro à consciência literária como problema social, e o abolicionismo era visto apenas como sentimento humanitário pela maioria dos escritores que até então trataram desse tema.
Só Castro Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o como herói, como ser integralmente humano. Com seu lirismo exacerbado compôs poemas antológicos do romantismo brasileiro, mas não afastou-se jamais de sua veia libertária de onde emergiu o poeta social, o republicano, o abolicionista, o cantor dos escravos.
Alguns poemas, como "O navio negreiro" e "Vozes d'África", obtiveram enorme sucesso popular quando declamados pelo poeta e se transformaram em verdadeiras bandeiras na luta contra a escravidão. O livro "Os escravos" foi publicado de forma independente pela primeira vez em 1883, doze anos após a morte do autor e reúne as composições antiescravagistas de Castro Alves, entre elas, os famosos poemas abolicionistas “O Navio Negreiro” e “Vozes d'África”.
Nos poemas de Os Escravos de Castro Alves, a poesia é suplantada pelo discurso político grandiloquente e até verborrágico. Para atingir o alvo e persuadir o leitor e, muito mais, o ouvinte, o poeta abusa de antíteses e hipérboles e apresenta uma sucessão vertiginosa de metáforas que procuram traduzir a mesma ideia. A poesia é feita para ser declamada e o exagero das imagens é intencional, deliberado, para reforçar a ideia do poema.
Ao longo de Os Escravos de Castro Alves e A Cachoeira de Paulo Afonso, Castro Alves vai apresentando ao leitor a vida do cativo, negro ou mestiço, sujeito à crueldade dos senhores, que arrancam os filhos dos braços das mães para os vender, estupram as mulheres, torturam e matam impunemente os “Homens simples, fortes, bravos…/ Hoje míseros escravos/ Sem ar, sem luz, sem razão…”
Afrânio Peixoto registra que esta obra deu a Castro Alves, então o maior poeta lírico e épico do Brasil pelos livros Espumas Flutuantes e Hinos do Equador, o "renome de nosso único poeta social", e também como "poeta dos escravos" e "poeta republicano", no dizer de Joaquim Nabuco, e ainda o "poeta nacional, se não mais, nacionalista, poeta social, humano e humanitario", no dizer de José Veríssimo.
Peixoto ressalta que a obra propaga a causa abolicionista. Registra que seus primeiros versos pela libertação dos cativos datam de 1863, quando contava somente dezesseis anos de idade; a maioria deles, contudo, é de dois anos mais tarde, 1865, quando são publicados, declamados e divulgados em todo o país, antecedendo autores como Tavares Bastos e dando o prenúncio da geração que traria a luta pela causa anti-escravidão como um dos ideais a ser perseguido e somente alcançado duas décadas depois.
Única peça de teatro escrita por Castro Alves, "Gonzaga ou A Revolução de Minas : drama historico brazileiro" foi encenada pela primeira vez na Bahia, no dia 7 de setembro de 1867, com estrondoso sucesso, sendo o poeta coroado e carregado nos ombros pelos admiradores até sua casa. O drama, carregado de patriotismo, recebeu elogios de José de Alencar e Machado de Assis e obteve consagração também em São Paulo, quando foi levado a cena, em outubro de 1868.
O Único livro publicado em vida do poeta, "Espumas flutuantes" teve grande e contínuo sucesso de público. Trata-se de uma coletânea de textos produzidos entre 1864 e o ano da publicação, na qual se encontram os vários tons da sua poesia: o intimista, o coloquial e o grandiloquente. Organizada paralelamente ao volume 'Os escravos', que o poeta não teve tempo de publicar, a coletânea não traz, por isso mesmo, os poemas abolicionistas que o consagraram.
Em “Ode ao Dois de Julho” (ou “Dous” de Julho, como grafado na versão original), Castro Alves faz uma espécie de poema épica em homenagem à Independência da Bahia, ocorrida em 2 de julho de 1823. Nessa data em questão, houve um conflito intenso entre as forças de Portugal e as do Brasil, resultando na expulsão dos europeus e na consolidação da Independência do Brasil.
Na primeira estrofe vemos uma descrição do campo de batalha, nos cerros da Bahia, com um anjo da morte costurando uma mortalha (um pano funerário) em Pirajá, onde aconteceu um dos conflitos decisivos. Nesse primeiro momento ainda resta a dúvida: qual dos dois gigantes vencerá, Brasil ou Portugal?
Em seguida, Castro Alves compara a batalha a um circo, como ao Coliseu, famoso pelas lutas de gladiadores. Entretanto, não era uma batalha de dois povos, mas uma batalha entre dois ideais: o passado e o futuro, a escravidão ou a liberdade. A batalha se estende até que a “branca estrela matutina” surge nos céus, marcando o início de novos tempos. E uma voz surge logo em seguida: a voz da Liberdade, que se estenderia às gerações futuras, honrando os soldados que perderam a vida lutando por essa causa.
João Antônio Guaraciaba nasceu
no dia 20 de setembro de 1850. Preto, alto, forte, viveu grande parte de
sua vida em Magé, Estado do Rio de Janeiro, onde morreu velho, enrugado
e de carapinha branca com seus bem vividos 126 anos. Gostava de andar, mas seus
passos ficaram lentos denunciando o peso da idade, o reumatismo e as “oito
picadas de cobras que levou na perna direita, de tanto viver nos matos”, apesar
de “lúcido e ainda enxergando bem para longe e sem sofrer de surdez”. Filho
de mãe angolana que o teve aos quinze anos, e o Barão de Guaraciaba “um
mestiço fazendeiro comprador de escravos negros na África onde conheceu sua
mãe Angelina, então negra forte e bonita”. Depois de engravidá-la, prometeu
buscá-los em outra viagem, trazendo-os assim para o Brasil num veleiro
negreiro.
João tinha apenas quatro anos de
idade. Registrado em Magé, onde “tirou certidão com testemunha e tudo”, como
filho do barão e Angelina Maria Rita da Conceição (nome cristão), “por
que naquele tempo não tinha disso não, a data do nascimento passava de boca em
boca, de parente para parente”.
Quando foi para Mauá, então
Guia de Pacobaíba freguesia de Magé, João tinha 17 anos, levado pela mão de
Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá “para tirar (procriar)
raça de crioulo escravo para o Imperador, que conheceu aquele preto forte na
fazenda do Barão de Guaraciaba, onde passou uns tempos e pensou até que
ele era escravo.
Chegou a querer comprá-lo, mas
o pai disse que não vendia, “porque João era seu filho”. Ao chegar a
Pacobaíba, na barca do Barão de Mauá aquele negro de “mãos de
dedos longos, braços fortes, capaz de segurar com força as mulatas e crioulas
da fazenda”, viu pela primeira vez “o trem vomitando fogo e fumaça” e apesar de
não ter sido escravo, “trabalhou no porto onde os barcos veleiros atracavam”.
Viu diversas vezes o Imperador
desembarcar no cais de Pacobaíba e pegar o trem para Raiz da Serra onde
embarcava na charrete até Petrópolis. “Era um homem sempre com o rosto
limpo e bem tratado”. Ficou em Pacobaíba fazendo alguns serviços para o Barão
até “despois que apanhei idade é que fui escolhido para tirar raça.
Na minha fazenda só tinha eu de
reprodutor”. Segundo suas próprias palavras, ele só foi levado para as fazendas
de Petrópolis e Correias com 23 anos de idade quando assumiu sua nova
“obrigação”.
Guaraciaba
afirmou que deixou mais de 300 filhos: 100 para D. Pedro II e 200 para o
Barão de Mauá, fora os que teve com as mulheres da fazenda de seu pai, em
Campos, ainda adolescente. “Ficou nessa vida de reprodutor, deitando-se com duas, três, quatro mulheres por dia nas senzalas em que o Barão e o
Imperador mandavam até os 38 anos, quando a Princesa Izabel aboliu a
escravidão.” A história registra que, quando João nasceu em 1850, a Lei
Eusébio de Queiroz confirmava a Lei de 1831 extinguindo o tráfego de escravos, punindo com penas severas os infratores. Seguiu-se a Lei dos
sexagenários de 1855. A Lei de 1869 libertando os servos que fossem para
a guerra do Paraguai. A Lei do Ventre Livre de 1871, e finalmente a Lei
da Abolição de 1888. João se lembrava que depois que surgiu a Lei do Ventre Livre, todos continuaram escravos, “agregados às fazendas sem outro ganho que não a casa e comida simples”. Foi escolhido para ser reprodutor por que “era preto de Angola”. Os senhores queriam pessoas bem fortes
para esse serviço. “Se nhô quer saber: nas fazendas que eu ficava aquelas que
não panhavam prenhez comigo eram vendidas para outros fazendeiros. Os donos
tinham muito interesse em mulher que reproduzisse, pra ter mão-de-obra barata,
pra trabalhar a cana, o café e a mandioca”.
Achava a “atividade” legal por
que “era premitido”. Ele gozava de regalias que o resto da negrada
não tinha. “Jamais entrou no chicote, nem foi açoitado no tronco ou
acorrentado. Nunca levou bolo de palmatória ou teve pés e mãos amarradas no
instrumento de tortura chamado “vira mundo”, onde muito escravo morreu. Às vezes
morriam com gangrena, de tanto esfregarem os braços nas correntes para se
soltarem cortando a carne que infeccionava”.
Com ele foi
diferente, embora trabalhasse com os escravos do Imperador, ajudando na
lavoura quando podia, tanto que era aposentado pelo Funrural e recebia
mensalmente por um banco de Magé Cr$ 300,00. “É muito pouco” dizia ele “não dá
pra viver não. Se não fosse os amigos não sei o que seria”. João também
lembrava das canções cantadas no eito pelos escravos. Trocando branco por
baranco ou furta por fruta, cantava o “Lundu do Pai João” que falava de
justiça: “Baranco dize: preto fruta / preto fruta com razão; / Sinhô
baranco quando fruta / quando panha casião; ./ O preto fruta farinha / fruta
saco de feijão; / Sinhô branco quando fruta / fruta prata e patacão; / Nego
preto quando fruta / vai pará na correção. / Sinhô baranco quando fruta / logo
sai sinhô barão”. Ele era o único na fazenda que não pagava no pesado. Boa alimentação e descanso, quando nas senzalas as escravas já o esperavam. “Era uma de cada vez na cama”. João sorri mostrando seus dois únicos dentes
amarelos. “De vinte que entravam, quinze pegavam filho”. Quando seu pai o
entregou ao Imperador, sabia que ele iria ser “cobridor de mucamas”.
Sua descendência se espalha pela Baixada
e na Serra, incluindo parentes do Barão de Guaraciaba, “mas quase
não vejo”. Antigamente subia a serra até Petrópolis de trem, mas desde
que o Presidente Castelo Branco extinguiu a ferrovia Mauá-Petrópolis
por ser antieconômico, raramente ia de ônibus.
“Companheiro do Aleixo, no
mundo acho no mundo deixo” dizia ele repetindo um ditado popular de seu
tempo. Mesmo numa época em que a Igreja vigiava o comportamento sexual das
pessoas, muita negra teve filho de senhores e muita senhora amaldiçoou seu
marido. Gostou de algumas escravas, mas como lembrar do “jeito” delas se o
tempo passou. Muitas já morreram. O que sabe é que tem filhos espalhados “pela
aí” de setenta, oitenta anos e que seus traços estão no olhar e no
requebro de alguma mulata de hoje, nos ombros largos e nariz afilado de algum
crioulo descendente afastado de alguns de seus trezentos filhos.
Naquele tempo, não bebia nem
fumava “pra não estragar o corpo”. Gostava de festas: São João,
São Pedro, Santo Antônio, São Jorge, São Marcos, e São
Sebastião. Gostava de ver capoeiras darem os botes. Cantava e pulava até de
Madrugada. Gelados nem pensar, tiram a potência do homem. “Esses gelados
pareceu depois da Abolição, não servem pra nada. Só pegou no Brasil porque
faz muito calor e o pessoal gosta de refrescar, mas eu conselho a juventude
evitar gelados, sorvetes”.
Negro João fica meditando
quando é indagado sobre quilombos. Fala sobre o da Vila de Marcos da
Costa e o da serra de Santa Catarina, perto de Petrópolis. E os
capitães do mato iam lá?
- Iam o que
sinhô, então eles eram bestas? Eles se escondiam em barrancos, faziam emboscadas
para as tropas, espalhavam armadilhas onde elas caiam.
O preto
velho que comandava o quilombo Marcos da Costa, mesmo doente de cama
dava ordens: “vai catar o milho, vai cuidar dos porcos. Eles tinham de
tudo, campos de gado, plantação de milho”. João conheceu muito crioulo
que fugiu para esse quilombo “onde tinha um santo que veio da África e era o
padroeiro do lugar, foi trazido pela fazendeira D. Inês, da Fazenda da
Glória”. Cansados de verem tanta “malvadeza dos brancos” com seus irmãos de
cor, a ponto de preferirem suicidar-se a continuarem escravos, a fuga era uma
forma de se libertarem. Em Pacobaíba viu chegar muitos negros e muita
negra mina natural de Angola. Uns destinados às fazendas, outros eram
anunciados no “Jornal do Comércio” do Rio de Janeiro pelos agentes de
escravos para serem vendidos em praça pública. Esse jornal publicava desde
1827 todo o movimento de navios com saída e chegada no porto. Compra, venda,
aluguel e fuga de escravos, aconselhando que chamassem a polícia para
capturá-lo e oferecendo recompensas a quem o levasse ao seu dono. João afirmava
que escutou muita história de negros jogados no mar durante a travessia da África
para o Brasil, “pelos comandantes que não queriam ser apanhados em
flagrante fazendo tráfico de escravos. Abriam o porão e pronto, todos os
escravos morriam afogados ou eram comidos pelos tubarões”.
Os velhos falavam que era assim,
coisa de gente muito ruim ...
“Diz o preto reprodutor que nunca
leu jornal, nem no Império nem agora, pois é analfabeto”.
“Guaraciaba ainda se lembra que a
fazenda de Pedro II era ali em Mauá, perto do lugar conhecido por Ipiranga
dos Remédios. Naquele tempo era católico, mas gostava de macumba.
Hoje é Batista, vai aos cultos sábados e domingos”.
Faz algum tempo, trabalhava no
transporte de bananas com uma carroça e uma égua de sua propriedade, depois,
passou a emprestar o animal ao compadre carroceiro para continuar o serviço, “por
culpa de um reumatismo, principalmente no inverno, quando as dores aumentam”.
Sobre os “feitores de escravos”, nem gostava de relembrar. Falava sobre
a maldade e tortura contra os negros, crianças, mulheres e homens, amarrados no
tronco e açoitados. Outros feridos a bala pelos senhores que
experimentavam armas ou exercitavam a pontaria.
- O pior
fazendeiro que conheci foi Antônio Nicolino, um homão de quase três metros de
altura que comprava 100 escravos de três em três anos. Com três anos de
trabalho a negrada estava arrebentada de tanta surra. Aí ele mandava comprar
aguarrás, fazia uma fogueira e matava aqueles mais fracos.
- Eles
pagavam os réis (impostos), e eram donos dos negros. Mas Deus é justo e Nicolino
morreu pobrezinho e ninguém chorou (aí Guaraciaba fala sorrindo) porque
todo mundo odiava ele.
Nesse tempo João era rapazinho e
esses crimes foram testemunhados na Fazenda do Morro Seco, em
Vassouras, propriedade de Nicolino.
- Tinha
escravo que também era capataz e se juntava com os brancos para bater nos
pretos, cercavam a negrada na mata e mandavam bala. Nhô não sabe, mais
tinha fazendeiro que se desconfiasse que algum escravo roubou, matava, que
era pru mode de não panhar costume.
O velho Guaraciaba está cansado
de falar e pára para tomar o café, servido na casa dos compadres onde concedeu
essa entrevista. Bebe de um só gole e estala a língua. Perguntado se nunca teve
mulheres firmes com quem viveu, diz que sim, a Maria Olina, a Maria
Madalena e a Olícia Maria do Carmo, esta com quem, teve uma filha
agora com 33 anos, Laura, que mora em Nova Iguaçu, casada com um
comerciante português.
“Os moradores de Mauá sabem de
sua última mulher, Maria Olícia, que ele diz ser a mãe de Laura,
morreu há três anos, com 50 anos. Aí o velho ficou mesmo só, dando suas
caminhadas, mas ainda com vontade de caçar negas por aí”.
Acordava de manhãzinha com o
cantar dos galos e dormia às oito da noite. Só sabia das horas orientando pelo
sol. Não tinha relógio. Perguntado se gostaria de conhecer Angola,
país onde nasceu, disse que “gostaria, mas só se fosse de navio”, pois “acho
bonito o mar”. São quatro horas da tarde e o velho Guaraciaba quer
ir embora pra casa, “hoje não foi almoçar com seus outros companheiros
crentes, comeu arroz, feijão e peixe aqui mesmo na casa do compadre Jorge
Carroceiro. Quer ir descansar”. Aceita uma carona. Está chovendo e a tarde
vai antecipando a noite. Indica a estreita estrada de barro rasgada no mato,
que João conhece bem, levando a um pequeno barraco de estuque com
quintalzinho nos fundos, onde uma bananeira ao lado da porta tomba com o peso
do cacho. Ao saltar do carro gemeu, ao botar a perna direita das oito picadas
de cobras e pisar no chão com lama que agarra nos sapatos. Casebre acolhedor,
mas que ele desejava melhor, pois nem porta firme tem, embora não se preocupe
com ladrões, não há ali nada para roubar.
“Ficaram de me dar uma
casa, mas acho que estão esperando eu morrer, diz brincando com um
sorriso, pitando seu cachimbo de barro deixando um cheiro de fumo no ar. Na sua
pureza ainda acredita em almas do outro mundo, rezando muito para elas não
aparecerem em sua vida, principalmente quando vai a Piabetá a pé,
sozinho pela estrada, chegando lá ao anoitecer”.
Dentro do barraco somente uma
velha cama com colchão de palha forrada com trapos e algumas panelas sobre
um armário. Seus bens mais preciosos cabiam dentro de uma lata vazia de
leite em pó. Ali eram guardados a certidão de nascimento e um folheto
evangélico, nada mais. “Quando quiser escrever uma carta (e pretende pedir uma
casa ao Governo), recorrerá à dona Maria e ao seu Miguel, os compadres
crentes”.
- O senhor
sabe o nome atual do Presidente da República?
- Não sinhô.
- Quais o que
o senhor se lembra?
- O Hermes
da Fonseca, o Floriano Peixoto.
“Para ele o mundo era ali. O rádio
da vizinha irradia ao longe o jogo Fluminense e Olaria transmitido do
Maracanã. Um avião quadrimotor passa baixo em direção ao Galeão. Vem
de longe também música no rádio, ouvindo-se Jards Macalé cantando “Hei
Cantareira” de Jackson do Pandeiro”.
Ali, naquele fim de mundo
“Guaraciaba não tem luz, gás, telefone, campainha, porteiros, síndicos,
cobradores, talvez nunca tenha sido recenseado pelo IBGE, os Correios
não sabem seu endereço. Mas dorme com canto de grilos nos matos, olhando as
estrelas nos céus das noites limpas sem poluição”. Na chegada da noite chuvosa,
despediu-se dos repórteres desejando boa viagem e perguntando se sabiam seguir
pela estrada até Magé. Agradecidos, eles prometeram voltar para atender
o seu pedido:
- Trais uns
agasaios pra mim, viu? Aqui faz muito frio.
Antônio João Guaraciaba, filho ilegítimo deFrancisco Paulo
de Almeida, o único Barão Negro do Brasil.
TEXTO
FACEBOOK: (e respectivo
POSFÁCIO) publicado em 14/03/2026, assim:
João
Antônio de Guaraciaba - A Escravidão e o Filho do Barão ...
Algo
de estranho notei! A sexta-feira é dia 13 ... E pouco se falou acerca do Dia
13 de maio recentemente havido - Abolição da Escravidão no Brasil.Um
fato histórico!
E
bem por conta de tal, em dias anteriores de previsão e já prevendo a data,
percorri “uns guardados” chegando aos idos de 2006, momento que resgatei
a reconstrução dessa magnífica história, à época, seguindo as pegadas do repórter
Luiz Carlos de Souza e o fotógrafo U. Dettmar do Rio de Janeiro.
“Numa
manhã chuvosa de sábado, dia 7 de junho de 1975, ambos chegaram à Guia
de Pacobaíba, Mauá, Distrito de Magé, baixada fluminense, em busca de João
Antônio Guaraciaba, ex-reprodutor de escravos, para ouvirem seu
depoimento, que restou publicado na mesma época em forma de reportagem, na
revista “Livro de Cabeceira do Homem” pela Editora Civilização
Brasileira, posteriormente no blog “Pedaços da história de Duque de
Caxias/Duque de Caxias, RJ”, projeto concebido pelos jornalistas Alberto
Marques e Josué Cardoso.”
“Hoje
perdida na poeira do tempo, procurei trazê-la, resumindo o extenso texto, numa
tentativa de resgatar das cinzas do esquecimento, um pedaço vivo e cruel da
escravidão, ressuscitado da memória desse interessante personagem, que se
integra na História da Baixada Fluminense e o processo de escravidão
que por lá se instaurou. Por oportuno, destaco que daquele tempo, muito
devo ao amigo de então, o Guilherme Peres (Pesquisador e já detentor de
blog, também diretor do IPAHB - Instituto de Pesquisas Aplicadas e
Histórias da Baixada Fluminense) que muito colaborou nesta reserva tendo
por base o título que se destaca.”
A
história de Antônio João Guaraciaba ilustra essa sombria realidade. Filho
ilegítimo de Francisco Paulo de Almeida, o único Barão Negro do
Brasil, um homem de imensa riqueza, dono de vastas propriedades, próspero
fazendeiro do café, centenas de escravos e banqueiro do Brasil nos tempos do
Império, além de empresas diversas como usina hidrelétrica e, para completar a
cereja do bolo, João desfrutou de um título de barão concedido pela própria
Princesa Isabel – o Barão de Guaraciaba – além de alguns privilégios outros
como empresário mineiro. Tal não seria muito diferente de outros nobres da
época não fosse um detalhe importante: em virtude de sua origem, ele era
negro em um pais de escravos.
Esta
é parte da notável da História de Antônio João Guaraciaba, filho
ilegítimo deFrancisco Paulo de Almeida, o único Barão Negro do
Brasil. Sua vida foi marcada por diversas fases de trabalho. Inicialmente,
atuou em Guia de Pacobaíba – Mauá, na Ferrovia do Barão de Mauá, onde
era responsável por levar água do Rio Mauá para as locomotivas.
É
importante ressaltar que o Barão de Mauá não era escravista. Posteriormente,
Antônio João foi submetido à desumanizadora função de
"REPRODUTOR" de "mão de obra barata". Ele faleceu em
1979, aos impressionantes 128 anos e 4 meses, caminhando pelas ruas de Guia
de Pacobaíba - Mauá.
→
Sua história encontra-se de modo mais amplo no conteúdo do meu blog que convido
para acessá-lo, assim como, clicando sobre a foto, assistir ao vídeo e conteúdo
referido.
Francisco Paulo de Almeida, o único Barão Negro do Brasil, homem muito rico, dono de vastas propriedades, próspero fazendeiro do café e muitos escravos.
Grande
povoador do Reinado de D. João II, em 1487. Do Arquivo Nacional da Torre do
Tombo
SENTENÇA
PROFERIDA EM 1487, NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO
(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5, maço7)
"Padre
Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois
anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos
dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em
diferentes distritos, pelo crime que foi argüido e que ele mesmo não contrariou,
sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e
sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove
comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove
filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas;
dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da
própria mãe teve dois filhos. Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos
e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido
em cinqüenta e três mulheres".
[agora vem
o melhor:]
"El-Rei
D. João IIlhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aosdezessete
dias do mês de março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela
região daBeira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real
Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo".