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domingo, 15 de outubro de 2023

PROFESSOR - O papel na atualidade ... Repleto de Dificuldade – Facilitadores da aprendizagem!

 

Cada vez mais, professores assumem o papel de facilitadores da aprendizagem!

Ao longo de muitas e muitas décadas, as instituições de ensino (da educação básica à superior) eram consideradas verdadeiros templos do conhecimento, e seus professores os mestres detentores de tudo aquilo que era realmente importante de ser levado para a vida. Entretanto, nos últimos anos, com as revoluções tecnológicas, esse cenário vem se alterando profundamente. A escola ou a faculdade não são mais os únicos lugares onde é possível aprender: o conhecimento está em toda parte, e foi democratizado principalmente por meio da internet.

Com isso, se antes o professor era o principal transmissor do conhecimento, atualmente ele vem assumindo papéis e funções diferentes – e não menos importantes! Pelo contrário:

       · o papel do professor, na atualidade, está muito mais associado à mediação do processo de construção autônoma do conhecimento por parte dos estudantes, 

          · o que muda o jogo para muitos docentes e, 

          · faz com que eles trabalhem com muito mais dinamismo do que antes.

Entenderemos melhor qual é esse novo papel, quais são seus desafios e quais são as competências necessárias para desempenhá-lo em face dessa atualidade, desde que se mantenha atualizado, diante dos  desafios do mundo contemporâneo para a sua prática docente!

Antes de refletir a respeito dos novos papéis que o professor desempenha hoje, vale discutir os desafios contemporâneos para a prática docente como um todo. Por princípio, é necessário pontuar que, embora os alunos (e suas necessidades) estejam em processo de constante e rápida evolução nas últimas décadas, nem sempre as práticas pedagógicas e as instituições de ensino os acompanham com a mesma rapidez e dinamismo.

Escolas, faculdades e universidades vêm preparando seus estudantes considerando habilidades e competências que seriam úteis nos dias de ontem ... Quando melhor, os preparam para os dias de hoje – o que também não é interessante. Estudantes devem ser preparados para a transição entre o hoje e o amanhã e para o próprio amanhã, ainda que este seja incerto e passível de mudanças, justamente porque é nesse espaço em que exercerão sua cidadania e se tornarão profissionais capazes de melhorar a sociedade.

Para fazer essa mudança, é fundamental entender os desafios que se colocam à frente das IES – Instituições de Ensino Superior (ditas unidades autônomas que oferecem serviços de educação superior, como graduação, pós-graduação e extensão) e dos docentes. Observe adiante:

1. Alunos da geração Z (em maioria);

Em sua maioria, os estudantes das IES são da geração Z, isto é, geração dos nascidos a partir do fim da década de 1990 do século 20. Eles são nativos digitais, ou seja, nasceram e cresceram com tecnologia acessível como parte de seu cotidiano e, por isso, estão permanentemente conectados. Com isso, práticas pedagógicas mais antigas, que desconsideram completamente o uso de tecnologias digitais, têm mais probabilidade de gerar desinteresse nesses alunos. O uso constante de smartphones e redes sociais traz muitos estímulos diferentes que disputam a atenção do estudante, e é necessário refletir a respeito de como utilizar esses recursos a favor das práticas pedagógicas.

2. Adaptação a metodologias novas e engajantes;

Também pela mudança de perfil dos estudantes, um dos grandes desafios à prática docente contemporânea é a adaptação a novas metodologias, que engajem os estudantes e proporcionem experiências de aprendizagem suficientes para o desenvolvimento de habilidades e competências pertinentes às novas realidades. Essas novas metodologias devem levar em consideração, por exemplo, as necessidades de aprendizagem particulares de cada aluno, possibilitando que cada um possa desenvolver seu próprio caminho de aquisição de conhecimento. Assim, é necessário romper com metodologias e práticas ultrapassadas, que já não motivam e não fazem sentido nos tempos atuais.

3. Motivação de docentes;

Além dos desafios dentro da sala de aula, na relação entre professor e aluno, há também um desafio relacionado à motivação do próprio docente. Tantas adaptações a serem feitas requerem um esforço contínuo, e é imprescindível que os professores se sintam motivados durante esse processo. Há uma tendência na sociedade recente de diminuir – e até contrapor – o valor da profissão docente, o que se traduz em exaustivas cargas de trabalho, baixos reajustes salariais, entre outros. Com isso, um dos grandes desafios das IES é reverter esse processo.

O papel do professor na atualidade

Os desafios para a prática docente discutidos acima dizem respeito, sobretudo, à dinâmica que se estabeleceu no mundo contemporâneo – regido, principalmente, pelas relações que se dão a partir da tecnologia. Nesse mundo, a instituição de ensino deixa de ocupar seu papel de templo absoluto do conhecimento e passa a se tornar um dos espaços onde é possível construí-lo!

Não é necessário ir muito longe para entender o porquê: basta alguns poucos toques dos dedos em um smartphone ou computador para acessarmos infinitas fontes de conhecimento, como livros, videoaulas, tutoriais, entre muitos outros. Com isso, se antes o docente era mestre, detentor e transmissor do conhecimento, hoje a relação se modifica

           · o papel do professor na atualidade é o de mediador do conhecimento, 

         · aquele que acompanha e orienta seu estudante no próprio processo de aprendizagem.

Esse papel se desdobra em um tripé que pode ser considerado a base da atuação do professor com seus alunos. Veja como: 

         Ø  Facilitar a aprendizagem;

A primeira “perna” do tripé é a facilitação da aprendizagem. Com isso, quero dizer que o professor deve ter a habilidade de mediar, facilitar o processo de aquisição do conhecimento do estudante, muito mais do que apenas transmitir o que já sabe. Facilitar está relacionado a estimular o estudante, criar oportunidades que o permitam construir seu caminho diante do conhecimento. Também está relacionado à criação de experiências de ensino que favoreçam a consolidação do conhecimento por meio da aprendizagem significativa – isto é, quando a aprendizagem ocorre baseada em conhecimentos prévios do estudante, expandindo seu repertório e ressignificando o que ele já sabe. Como estudantes conseguem acessar todo tipo de conteúdo com muita facilidade, torna-se papel do professor auxiliá-lo a entender o que fazer com todo esse material disponível. 

          Ø  Desenvolver habilidades e competências;

Vimos que é importante que as instituições de ensino preparem o estudante para o futuro, considerando habilidades e competências que os tornarão cidadãos atuantes e bons profissionais. Com isso, é imprescindível considerar que um dos papéis do professor na atualidade é, justamente, promover experiências que possibilitem que o estudante desenvolva essas habilidades. Entre as habilidades mais exigidas pelo mercado e pelas empresas estão:

§  empatia, flexibilidade e capacidade de autogerenciamento,

§  colaboração em equipes, valores éticos, senso forte de cidadania e justiça social, entre outros.

Assim, além de facilitar o conhecimento, é fundamental que docente e IES estimulem o fortalecimento dessas competências nos futuros profissionais que estão formando. 

          Ø  Ensinar a conviver;

Uma das funções basilares de toda instituição de ensino, desde a pré-escola até as faculdades e universidades, é justamente ensinar a conviver. Esse é um dos pilares que se mantém firme também na perspectiva do educador:

§  além de facilitar a aprendizagem e de promover o desenvolvimento de habilidades para o exercício da cidadania e do trabalho,

§  é papel dele estimular o convívio saudável,

§  a construção da cidadania em si e do pensamento crítico.

As competências necessárias para ser professor na atualidade

Vimos que todas as transformações pelas quais o mundo passou nas últimas décadas tornam necessária uma mudança profunda nas práticas pedagógicas, no papel do professor e na relação professor-aluno. Entretanto, nada disso é possível sem uma grande e constante preparação do docente – em outras palavras, a formação continuada e superiormente possibilitada. Conforme escreveu o célebre educador Jean Piaget:

“... a preparação dos professores constitui a questão primordial de todas as reformas pedagógicas, pois enquanto ela não for resolvida de forma satisfatória, será totalmente inútil organizar belos programas ou construir belas teorias a respeito do que deveria ser realizado”.

Portanto, da mesma maneira que o papel do professor na atualidade é, entre outros, ajudar a formar competências para o futuro, para que ele consiga desempenhá-lo, ele mesmo deve procurar desenvolver algumas habilidades. Penso então, quais são as principais:

1. Criatividade e inovação;

Conseguir inovar e usar da própria criatividade (e de recursos criativos) constantemente é um dos grandes diferenciais dos professores preparados para lidar com o mundo contemporâneo. No caso, inovação e criatividade estão associados a conseguir se adaptar ao ritmo dos jovens estudantes da geração Z, que têm seu próprio ritmo e exigem estímulos muito mais dinâmicos do que os que se estabeleciam no formato tradicional de transmissão de conhecimento. Agora, muito mais do que isso:

§   é necessário construir espaços seguros de construção do saber,

§  o que exige capacidades de criar e inovar por parte do docente.

O uso de metodologias significativas, que coloquem o estudante no centro do processo de aprendizagem (como condutor e protagonista dele), é uma parte desse percurso. Além disso, incorporar de maneira inteligente a tecnologia em sala de aula (muito mais do que simplesmente bani-la ou restringi-la, como é a tendência dos modelos tradicionais) pode ser um dos grandes diferenciais para que estudantes se mantenham engajados e tenham qualidade no próprio aprendizado.

2. Estímulo ao pensamento crítico;

Uma educação que preza pelo desenvolvimento de habilidades como autonomia passa necessariamente pelo estímulo ao pensamento crítico, isto é, estímulo ao pensamento que reflete, analisa e critica, de forma responsável, todas as informações e opiniões com as quais se depara. Diante de um oceano de informações que parece infinito, uma das habilidades fundamentais para o professor voltado ao futuro não é mais apenas buscar transmitir o conhecimento “certo”, e sim, auxiliar seus alunos a construir parâmetros e critérios robustos que os permitam “navegar” por esse oceano, sem cair em informações falsas ou deturpadas. Pelo contrário:

§  o estudante deve ter autonomia suficiente para não apenas reproduzir conteúdos de forma automática,

§  e sim consumi-los com consciência. 

Com isso, essa autonomia bem construída que leva ao pensamento crítico pode tornar seus estudantes pessoas que têm boa capacidade de tomar decisões, que sabem atuar de maneira cidadã, detentor de consciência cidadã!

3. Letramento tecnológico e curadoria de conteúdo;

Como as necessidades relacionadas ao dinamismo das novas gerações estão intimamente vinculadas ao uso das tecnologias, é importante que o professor desenvolva seu próprio letramento tecnológico, que possibilite que ele consiga utilizar as tecnologias em sala de aula com autonomia e da maneira correta para engajar os estudantes. No momento que vivemos, não dá mais para desassociar completamente as experiências de aprendizagem do uso dos recursos digitais, por isso a necessidade. Além disso, o bom letramento tecnológico do professor também o ajuda a realizar uma curadoria de conteúdo de aula mais eficiente, possibilitando:

§  que engaje e se conecte melhor com seus alunos,

§   fortalecendo a aprendizagem significativa.

4. Empatia;

Essa é uma habilidade essencial para qualquer pessoa que viva em sociedade no mundo contemporâneo. Desenvolver a empatia é fundamental para que o professor desenvolva um senso de profundo respeito e parceria com seus estudantes, entendendo suas facilidades e dificuldades, suas aspirações e limitações. Saber se colocar no lugar do aluno, mesmo que ele seja de uma geração muito diferente da sua, é essencial para o desempenho do papel do professor na atualidade.

Destaco que, à luz do acima exposto, compreender melhor os desafios e as habilidades necessárias para desempenhar o papel do professor na atualidade, em meio às complexas relações contemporâneas me põe em regime de expectativa ... Pois que, durante o nosso cotidiano, é possível que nos remetemos a pensar e dizer que:

... o tempo é a chave para a superação de determinados acontecimentos em nossas vidas“.

Posso afirmar que de uma forma, ou de outra,  já me deparei com expressões do gênero: “tudo é questão de tempo”; “o tempo cura tudo” ou ainda “só o tempo vai dizer...”. O sentido que  toma tais expressões, precede-se que a pessoa acredita que o tempo possa proporcionar mudanças em relação ao fato que ocorreu e, que estas aconteçam de forma positivas. Ora, estas estão devidamente ligadas ao senso comum, mas que no entanto direcionam para uma reflexão de caráter teórico e filosófico.

Trago comigo então pares de paralela jornada, visto que filósofos como Santo Agostinho: o amante dos prazeres que, convertido, se tornou doutor da Igreja Católica (354-430, também escritor, teólogo e bispo), Aristóteles (nascido na Macedônia, em 384 a.C.) foi um dos três grandes filósofos da Grécia Antiga, tendo convivido com Platão e, ao que se sabe, em sua juventude teve uma sólida formação em ciências e que esta influenciou em muito sua produção filosófica, ou até mesmo historiadores como Krzystof Pomiam (nascido em Varsóvia, Polônia, em 25 de janeiro de 1934 – 89 anos), igualmente filósofo, historiador e ensaísta polonês, também professor de história, e que, em 2001 dirigiu academicamente o Museu da Europa em Bruxelas, destaco que, todos os referidos já se dedicaram a desvendar o tempo.

Assim, tendo em vista uma definição de tempo, apresento que:

“O objeto que designa a palavra tempo, uma coordenação de mudanças reais ou representadas, realizada por uma instância coordenadora que emite signos ou sinais para esse fim. Não Existe o tempo, tempo no singular. Existem múltiplos tempos. Uma classe de natureza de várias instâncias”.

(POMIAN, 1990)

Portanto, se partimos dessa definição de tempo acima, poderíamos estar dialogando com as expressões mencionadas acima, posto que, esse tempo emerge da mudança, e constitui-se em mudanças, poder-se-á emitir respostas, sinais ... Reside uma expressão correlata: “só o tempo vai dizer”.

Por oportuno, uma célebre passagem, de uma, das letras musicais ditas do cantor Cazuza pode ser apresentada aqui; Cazuza ao compor a música (diz-se) O tempo não para, cuja gravação ocorreu no ano de1988, diz assim:

“O tempo não para/Eu vejo o futuro repetir o passado/Eu vejo um museu de grandes novidades/O tempo não para.”

Como se pode observar, as expressões que fazem referência ao tempo e ao passado, estão presentes no cotidiano das pessoas, que usam destes numa espécie de orientação no contexto em qual estão inseridos, como o presente estudo que proponho. Todavia, cabe aqui questionar, que tempo é este ao qual busco apresentar nestes parágrafos? Estou a falar do tempo em si, ou de uma ideia pedagógica no tempo ... No espaço ... Aliás, como já propuseram, já praticaram e implantaram ... É procedente face ao futuro já compondo o presente ... É procedente?

Destaco que durante os meses de setembro/outubro de 2021 produzi tal estudo que sintetizei com base nas minhas diversas experiências (embutidas competências e habilidades). Imediato encaminhei-o para a série de Educação da então Saraiva – Editora Saraiva, hoje falida, com vistas à possível apreciação de conteúdo e demais avaliações. Até hoje não obtive retorno ... Outros tempos! Então, nesta oportunidade, resgato-o com algumas alterações de edição com vistas às homenagens do Dia do Professor.

Parabéns aos Professores!

Muito dignamente homenageados segundo a Recomendação da UNESCO / OIT sobre o Estatuto dos Professores, em cooperação com OIT – Organização Internacional do Trabalho, numa conferência intergovernamental especial convocada pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (agência especializadas das Nações Unidas (ONU) e realizada em Paris.

Roberto  Costa  Ferreira,  15 de outubro de 2023

HILASA–Instituto de História, Letras e Artes

Santo Amaro – São Paulo/SP







sexta-feira, 13 de outubro de 2023

ESTOU de LUTO! - DIA MUNDIAL DO ESCRITOR - Então, vivo este tempo. O tempo de Manuel Bandeira!

13 de outubro de 1968, Botafogo, Rio de Janeiro, faleceu Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho.
Um poeta, crítico literário  e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.


Vivo este luto, exatamente no dia que comemoro o tempo do Escritor - Dia Mundial do Escritor - isto me consola, pois que, lembro nesta oportunidade do Salmos 119:50 - que a tua palavra me vivifica. O que me consola na minha angústia é isto: que a tua palavra me vivifica!

Aqueles que amamos nunca partem de dentro de nós, mesmo que a morte os leve para longe

Remonta considerar que quando alguém falece, é muito usual utilizarmos a expressão “meus pêsames”. Tal expressão - Pêsames - é um substantivo que expressa o sentimento de pesar, compaixão e dor em relação à morte de alguém. A sua origem está associada a forma verbal “pesa” associada ao pronome “me” (formando, então, pesa-me). Antigamente, a expressão “pesa-me” era usada para definir situações que causavam dor e desgosto. Por exemplo, na frase “pesa-me muito vê-lo sofrer”. De tanto usar “pesa-me”, foi surgindo, aos poucos, a palavra pêsame. Hoje, é mais comum a usarmos no plural, pêsames. Porém, a ideia permanece semelhante. Afinal, sentimos dor e pesar quando alguém falece ...

É o que ocorreu, visto que,  em 13 de outubro de 1968, Botafogo, no Rio de Janeiro, faleceu Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho. Um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Considerado como parte da geração de 1922 do modernismo no Brasil, seu poema "Os Sapos" foi o abre-alas da Semana de Arte Moderna.

Resumidamente, temos que, ao longo de sua carreira, Manuel Bandeira escreveu vários poemas que podem ser considerados “poéticas”, ou seja, eles tratam do “fazer poesia”, ora dizendo para que a poesia serve, ora dizendo como ela deve ser. Este trabalho em texto apresenta uma análise de um desses poemas – “Desencanto” –  sob a perspectiva da semiótica francesa. E por fim um último - O Último Poema. No primeiro, especial atenção foi dada às condicionantes: 

·         organização do plano da expressão, 

·         à aspectualidade e à tensividade no poema. 

Em 19 de abril de 2023 Manuel Bandeira faria 137 anos. Bandeira passou a vida num adiamento da morte devido à tuberculose, mas só morre aos 82 anos. na verdade, ele foi vítima da ironia. Quanto a este texto, aqui propus uma intromissão, mas me mantendo atento ao poema; deixando-me por ele ser atravessado a fim de que em meu corpo a palavra fizesse mais que cama ou habitação (se possível for haver mais que isso). Ser cavalo não do poeta, mas do poema; e assim deixar que as imagens me (nos) conduzisse(m) para algum tipo de destino possível.

Pois bem, ele partiu ... Um último tempo para o que importa e principalmente para as coisas sem importância. O ávido inútil, incompreensível estado de tudo que se move. olhar para um poema e dizer: acabou. Encerrar as mãos como se escrever fosse seu delírio mais duradouro. No extremo instante, encontrasse a fenda de cujo corte extraviassem as contendas duma vida ordinária. Não há mais verso, imagem, fôlego. o ritmo andante enuncia a paragem no tempo controverso das sutilezas. Num recorte onde o definitivo poema não finda uma poética, e sim a restabelece ao contexto das ficcionais despedidas, Manuel Bandeira encena a melancolia no adiamento de sua ida … para a qual nunca foi, na verdade. Ei-lo aqui, presente, sempre!

De tal sorte que, em breve Análise semiótica de "Desencanto", produzido anteriormente - 1912 - apresento agora, de Manuel Bandeira que, pertencente ao gênero lírico, pois apresenta um eu lírico expressando suas emoções, ideias, há a subjetividade como mostram os verbos e pronomes em primeira pessoa, depreendendo do livro de estreia de Manuel BandeiraA Cinza das Horas (1917) – que é repleto de poemas de um lirismo melancólico e que remetem a temas como a espera da morte, a frustração, a resignação de quem espera o fim, o sofrimento, a angústia, a tristeza, etc.

Assim, o poema que lembro neste momento foi publicado em tal livro e não é diferente. “Desencanto” é um metapoema que descreve o ato de fazer poesia como uma espécie de “válvula de escape”, como um desabafo de um ser que sofre e espera a morte. Desse modo, ele pode ser considerado uma primeira “poética” de Manuel Bandeira, que descreve para que a poesia serve. Minha curta análise tem por objetivo explicitar como esta relação da poesia com o sofrimento está constituída neste texto e demonstrar os recursos utilizados na construção do sentido.

Desencanto

Eu faço versos como quem chora

De desalento… de desencanto…

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

 

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…

Tristeza esparsa… remorso vão…

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.

 

E nestes versos de angústia rouca,

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

— Eu faço versos como quem morre.

(Teresópolis, 1912) - [A cinza das horas, 1917]

Nessas breves considerações que fiz de “Desencanto” como uma poética, vai ao encontro do que diz o crítico Davi Arrigucci Jr. (2003:132-133) quando afirma que a poesia de Bandeira é:

“uma experiência da ameaça de morte. Esta que é uma condição geral de toda existência humana, se fez, no seu caso, um risco próximo e permanente (...). O rapaz que só fazia versos por divertimento ou brincadeira, de repente, diante do ócio obrigatório, do sentimento de vazio e tédio, começa a fazê-los por necessidade, por fatalidade, em resposta à circunstância terrível e inevitável (...). Nascendo junto com a circunstância adversa, a poesia é então percebida como um desabafo momentâneo (...)”.

Nessa sintonia, onde percebe-se o "desabafo", temos então, publicado em Libertinagem  (1930), “O último poema”  que carrega a potência do sarcasmo, da sagacidade que compôs a poética bandeiriana, múltipla nos modos de composição. Evidentemente, é um poema que em vez de encerrar uma trajetória, continua abrindo caminhos, tal qual este aqui nascido numa tentativa de incorporação poemática.

O último poema

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

O drama de se pensar nos atos finais: aceno, beijo, poema, abraço, cena. A hora mais que hora de algo que se chamaria representação. Mas a representação não acontece no poema, uma vez que este se realiza como realidade fundada na leitura do leitor, da leitora. O poema vigora como tempo das ocasiões tardias ou prematuras, fugidias e ratificantes de seu intenso presente. Poema que é agora ou nunca, último e primeiro. Quereria eu (ou não) que fosse este meu decisivo escrito. Quereria apenas a vontade de ser naquilo que se tem aos poucos, ou na torrencial referência dos sujeitos. Resistisse ainda a melancólica travessia para o estado derradeiro do nada, quando possível.

Que fosse terno o poema, ainda que voraz na aversão por hiatos. Presença nascida na despedida toante da última palavra dita, da última boca no ventre mágico do verso. Quem me dera eu ser o terminal poeta cuja desolação me levasse para a pasárgada. Lá fosse rei e amigo dos que nascem a cada instante. Seria tão mais fácil construir um bom dia se o encontro não fosse afoito, e caso perguntasse na exata medida da curiosidade: Do que são feitas as coisas mais simples e menos intencionais?

Quando o choro fosse noite, amanhecesse encharcado pela secura das lágrimas – ardentes no arranjo vazio dos soluços. O mar para fora de sua salinidade contorna o relevo do peito no arfar do meu nome ao ser içado no mais forte fôlego: Bandeira. Poema, que último fosse o gesto de sua taquicardia inesperada e alcançasse o extremo calor na ardência tardia de sua proclamação. Das almas fossem feitas brisas ante a tempestade que se anunciava, até tomarem gosto pela tragédia e levarem consigo os crentes do paraíso.

Poema, decisivo em seu fim, arrumaria com cuidado sobre o peito as flores gastas de tanto delas se retirar o olfato; belas, dada a dinâmica oracular de suas cores. Reclamaria o cheiro por um triz distanciado da estrutura com a qual se arrumam a ilusão dos destinos. Passarei a crer que nesse findo encalço se manterão as glórias enviadas ao despautério de nossa despedida e, assim, despertar o que atende pela ausência da própria escansão.

Tivesse ainda a pureza da chama para desfazer a alotropia do carbono e reinventar a estrutura mais límpida dos diamantes. Fizesse a lua descer da noite sem tocar em estrela alguma, a fim de trazer para perto a luta com seu dragão tatuado. Queimaria com fogo forte a letra impressa e disso faria um manifesto em que sapos se refeririam ao adereço primal da semana na qual foram tomadas as escadarias da vanguarda. Ao mesmo tempo, ficaria ciente de que ali se faria novamente um mundo. Embora não fosse meu corpo presente, a presença do poema ora último talvez primeiro responde pela matéria de realidade incitada enquanto ainda houver quem me leia silente ou ferozmente.

Desfrutasse finalmente, poema, dos que morrem por si próprios apaixonadamente. Sem explicação é a beleza suicida dos versos, nascidos com a partida duma voz futuro-pretérita: assim eu quereria meu último poema. Que tivesse em cada verso o lampejo da frase interrompida. O anonimato dos nomes cerrado em lábios calados desde o estalo da irrevogável imagem proferida. Quereria assim meu poema, último na descendência pela cesura confortável. A pausa libertina na respiração das palavras, sua passagem, o intervalo findo como a estrela da manhã.

Manuel Bandeira encena a melancolia no adiamento de sua ida… Para a qual nunca foi, na verdade!

Roberto Costa Ferreira, 13 de Outubro 2023.

HILASA – Instituto de História, Letras e Artes

Santo Amaro / São Paulo / SP.