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quarta-feira, 22 de julho de 2026

"HOMENAGENS – DIA MUNDIAL DO CÉREBRO – DIA NACIONAL DO ESCRITOR - havidas durante este mês de julho de 2026!" – Uma Análise.

 

O Dia Mundial do Cérebro é comemorado anualmente em 22 de julho. Em 2026, a campanha promovida pela Federação Mundial de Neurologia (WFN) traz o lema “Saúde cerebral: acesso para todos”, focando na igualdade de atendimento médico.

Já o Dia do Escritor é comemorado no Brasil em julho (Dia Nacional do Escritor) — 25 de julho de 2026 — data oficial criada em 1960 pela União Brasileira de Escritores (endossado com nomes como Jorge Amado e João Peregrino Júnior), objetivando primordialmente:

  • Valorização cultural: Reconhecer o trabalho de quem cria histórias, poemas e, sobretudo estudos e pesquisas que formam a cultura do país;
  • Incentivo à leitura: O momento serve para divulgar obras nacionais e apoiar autores locais e independentes. 

Bem por tais datas fui buscar no Museu do Cinema um precioso depoimento, assim como no meu perfil do YouTube, tal momento de conexão com Deus, quase uma oração ... Uma súplica... Um singelo pedido ... Um apelo direto por intervenção divina. A negação do eu ou morte do ego!

A fusão entre a intensidade dramática de Al Pacino e a entrega de um escritor é perfeita: escrever é, antes de tudo, um ato de desapego e de esvaziamento do próprio ego para dar vida a algo maior.

 "Celebrar o escritor brasileiro neste 25 de julho é reconhecer um ofício de entrega absoluta. Assim como o lendário Al Pacino buscou a transcendência em sua arte ao clamar 'Senhor, livra-me de mim mesmo para que eu possa te agradar', o escritor repete esse milagre a cada página. Ele silencia a própria voz, despe-se de seus julgamentos e esvazia-se de si para que a história, a verdade e a alma de seus personagens possam falar. Homenagear nossos autores é aplaudir essa intensidade que nos liberta e nos transforma."

Por tal reconhecimento é que reeditei o conteúdo de meu anterior texto, adaptado para as homenagens, ora reforçado por meus pares existenciais, trazendo nas minhas lembranças Santo Tomás de Aquino, tendo sido apelidado de “boi mudo” por seus colegas, devido à sua natureza reservada, sendo certo que o eco de seu pensamento ressoa até os dias de hoje, confirmando as palavras de seu mestre, Santo Alberto Magno:

 “Esse boi vai berrar tão alto, que seu berro vai ecoar no mundo inteiro.”

Santo Tomás de Aquino é celebrado por ter unido a inteligência racional com a fé católica, sendo um exemplo de dedicação ao estudo e à verdade. Protetor de escolas, universidades e professores católicos, é referência na busca pela verdade intelectual. E neste texto sintetizo de forma condensada, os pontos principais da frase pronunciada pelo icônico, lendário, atemporal Al Pacino, célebre por suas performances intensas, durante uma de suas gravações:

"Senhor, livra-me de mim mesmo para que eu possa te agradar", originalmente assim descrita:

"Lord, free me of myself that I may please you. I love the line that Michelangelo said when he was doing the Sistine Chapel... meaning, uh, get to that place in us where we're not censoring ourselves... but rather connect to whatever it is we're trying to say... and letting the unconscious free."

E, por oportuno, e foi citada em uma entrevista recente, muito embora a autoria original é atribuída ao artista renascentista Michelangelo durante a pintura da Capela Sistina. Desse modo, procurei estabelecer a relação que se pode consolidar entre o ator Al Pacino e o filósofo e teólogo Santo Tomás de Aquino é fundamentalmente de natureza cultural, espiritual e interpretativa, transitando entre a filosofia da arte e o catolicismo:

  • Influência na preparação artística: A célebre oração que Santo Tomás de Aquino fazia antes de iniciar seus trabalhos — pedindo agudeza, sutileza e acerto ao começar e concluir uma obra — é frequentemente citada na crítica cinematográfica. Ela serve de metáfora para descrever o rigor, a busca pela verdade e a intensidade que artistas geniais, como Al Pacino, aplicam na composição de seus personagens complexos.
  • A busca pela verdade e a ética: Tomás de Aquino defendia a indissociável união entre a fé e a razão, argumentando que a busca por Deus e pela verdade é o objetivo maior do intelecto.
Esse zelo pela "verdade" é visto por ensaístas e críticos como o pilar de qualquer grande obra de arte, algo que se reflete na profundidade psicológica e na autenticidade de papéis icônicos do ator, como Michael Corleone (O Poderoso Chefão) ou Frank Slade (Perfume de Mulher).

  • Fé Católica: Al Pacino foi criado dentro da tradição católica, religião central para a vida e obra de Santo Tomás de Aquino. O ator chegou a declarar que os únicos lugares onde se comportava como criança e encontrava refúgio foram a igreja, a escola e o cinema.

O ator mencionou essa declaração histórica para explicar o seu próprio processo criativo no cinema, significando quanto em razão da existência humana, o público frequentemente associa essa busca interna aos papéis marcantes do ator.

No filme O Advogado do Diabo, por exemplo, o personagem de Al Pacino explora exatamente o oposto desse desapego: a vaidade humana exacerbada e o aprisionamento do homem no próprio ego. Comparativamente, São Tomás de Aquino, o "Príncipe da Escolástica", também "Doutor da Igreja" sempre que ia começar um trabalho pedia em oração:

"Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza para interpretar, graça e abundância para falar, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir".

O período Renascentista é conhecido pela abundância de obras-primas, mas destaca-se nesse período um culto ao Divino, a verdade e ao amor. É impossível fazer arte sem amor a verdade!

O modesto Al Pacino, que nos trouxe Michael Corleone, Coronel Frank Slade, John Milton e Tonv Montana, entre muitos outros, traz consigo, como trazia Ayrton Senna. Oscar Schmidt e tantos outros notáveis.

Portanto, a frase "Senhor, livra-me de mim mesmo" em tela carrega uma profunda carga existencial, filosófica e psicológica. No contexto da existência humana, ela resume o conflito interno entre a nossa essência e as nossas limitações.

Adiante estão os principais significados dessa súplica divididos por vertentes existenciais:

O Ego e a Autossabotagem:

  • Conflito interno: O maior inimigo do ser humano frequentemente não está no mundo exterior, mas dentro de si.
  • Impulsos destrutivos: Reconhece que nossas próprias paixões, vícios, orgulho e medos moldam nossas piores decisões.
  • Cegueira emocional: O ego inflado nos impede de ver a realidade, gerando sofrimento por expectativas irreais. 

Liberdade Existencial e Escolha:

  • O peso da liberdade: Como dizia o filósofo Jean-Paul Sartre, o homem está "condenado a ser livre".
  • Angústia da escolha: Ter o poder de decidir traz o medo de falhar e a culpa pelas próprias escolhas.
  • Desejo de renúncia: Pedir para ser "livre de si" é um clamor pelo alívio da responsabilidade esmagadora de guiar a própria vida.

Dualidade da Natureza Humana:

  • Razão vs. Emoção: Ilustra a batalha constante entre o que sabemos que é certo e o que desejamos por impulso.
  • Sombra psicológica: Alude ao conceito de Carl Jung sobre a "sombra", a parte oculta e obscura da nossa psique que tentamos rejeitar.
  • Transcendência: Indica a busca por superar a condição animal e egoísta para alcançar um estado superior de consciência.

Dimensão Espiritual:

  • Esvaziamento (Kenosis): No sentido teológico, significa abrir mão da própria vontade egoísta para alinhar-se a um propósito divino.
  • Reconhecimento da fraqueza: É um ato de humildade onde o indivíduo admite que sua autossuficiência falhou.

Sob a ótica da psicologia moderna, especialmente através das teorias de Sigmund Freud e Carl Jung, a frase "Senhor, livra-me de mim mesmo" expressa o sofrimento gerado pelas divisões internas da mente humana.

Abaixo está a análise dividida pelas duas escolas de pensamento:

A Perspectiva de Sigmund Freud (A Batalha do Aparelho Psíquico)

Para Freud, a mente humana é um campo de batalha constante entre forças opostas. A frase reflete a angústia do Ego (o "eu" consciente) esmagado por duas instâncias:

  • O Id tirânico: O reservatório dos nossos impulsos primitivos, sexuais e agressivos. Pedir para ser livre de si é o Ego tentando não ceder aos desejos destrutivos do Id.
  • O Superego punitivo: A nossa moral rígida e internalizada. O Superego gera culpa excessiva por pensamentos inconscientes, fazendo o indivíduo se sentir seu próprio carrasco.
  • A Pulsão de Morte (Thanatos): Freud identificou uma tendência humana inconsciente para a autodestruição e repetição de comportamentos dolorosos. A súplica é um clamor consciente contra essa força autoaniquiladora.

A Perspectiva de Carl Jung (O Confronto com a Sombra)

Jung enxerga essa frase como o momento exato em que o indivíduo se depara com a complexidade da sua própria totalidade psíquica:

  • O Encontro com a Sombra: A "Sombra" contém as partes rejeitadas, reprimidas e obscuras da nossa personalidade que o Ego se recusa a aceitar. O clamor surge quando a Sombra ameaça assumir o controle do comportamento.
  • A Ilusão da Persona: O indivíduo constrói uma máscara social ("Persona") para o mundo. O conflito ocorre quando a realidade interna desmascara essa Persona, gerando uma crise de identidade.
  • O Processo de Individuação: Para Jung, a salvação não vem ao "livrar-se" de si, mas ao integrar a Sombra ao consciente. A frase representa o estágio inicial e doloroso desse processo, onde o ego se sente impotente perante o inconsciente.

Como o conceito de autossabotagem se conecta a essas teorias?

O conceito contemporâneo de autossabotagem o ato de criar barreiras para o próprio sucesso ou bem-estar — encontra suas raízes e explicações mais profundas nas estruturas psíquicas propostas por Freud e Jung

Abaixo está a conexão direta entre a autossabotagem e as duas teorias:

A Visão Freudiana: A Punição Inconsciente

Para Freud, a autossabotagem não é um erro de percurso, mas um ato deliberado do inconsciente para resolver conflitos internos:

  • Necessidade de Punição: O Superego (nossa moral rígida) pune o indivíduo com o fracasso quando ele sente que não merece o sucesso. O sentimento de culpa inconsciente sabota a conquista para aliviar a tensão moral.
  • Compulsão à Repetição: O ser humano tende a repetir traumas e padrões dolorosos da infância. A autossabotagem é o mecanismo que recria situações familiares falhas, pois o inconsciente prefere o sofrimento conhecido à incerteza do novo.
  • Ganho Secundário: O fracasso auto infligido traz benefícios ocultos. Sabotagem evita a ansiedade do julgamento alheio, o medo do sucesso e a responsabilidade de crescer.

 A Visão Junguiana: A Rebelião da Sombra

Para Jung, a autossabotagem ocorre quando negligenciamos partes essenciais de quem somos, gerando uma dissociação psíquica:

  • A Sombra Autônoma: Quando reprimimos nossos desejos, defeitos ou talentos na Sombra, eles não desaparecem. Eles ganham força e agem de forma autônoma na realidade através de "atos falhos", esquecimentos e escolhas erradas.
  • Inflação da Persona: Viver exclusivamente pela máscara social (Persona) afasta o indivíduo de sua verdade interna. A autossabotagem surge como um freio de emergência da própria psique para derrubar uma vida artificial e forçar a autenticidade.
  • Complexos Afetivos: Constelações de ideias inconscientes carregadas de forte emoção (como o "complexo de inferioridade") assumem o controle do Ego temporariamente, fazendo a pessoa agir contra os próprios interesses sem perceber.

 A autossabotagem é, portanto, o reflexo exato da frase "livra-me de mim mesmo": o Eu consciente sendo boicotado pelas forças ocultas da própria mente. De outro modo, através da filosofia existencialista clássica temos que (Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Simone de Beauvoir e Søren Kierkegaard), a frase "Senhor, livra-me de mim mesmo" ganha um sentido radicalmente diferente da psicologia.

Não se trata de uma luta contra forças ocultas do inconsciente, mas sim da angústia diante da liberdade absoluta e do peso da própria existência. Segue a análise sob a ótica dos principais pensadores existencialistas:

Jean-Paul Sartre: A Náusea da Liberdade Absoluta

  • Condenados à liberdade: Sartre afirma que "o homem está condenado a ser livre". Não há determinismo, destino ou natureza humana pré-definida.
  • O peso da escolha: Como somos os únicos responsáveis por criar o nosso próprio significado e essência através das nossas ações, a responsabilidade é esmagadora.
  •  Má-fé: Clamar "livra-me de mim mesmo" é o desejo supremo de fugir dessa responsabilidade. É a tentação de agir com má-fé, fingindo que somos um objeto determinado por forças externas (ou pelo próprio Deus), em vez de sujeitos livres.

Albert Camus: O Confronto com o Absurdo

  • A busca por sentido: O ser humano anseia por significado em um universo que é silencioso, frio e sem sentido inerente. Essa colisão é o Absurdo.
  • O desejo de escape: A súplica reflete o cansaço do indivíduo diante do esforço diário de empurrar a sua própria pedra (como no Mito de Sísifo).
  • Suicídio filosófico: Pedir para ser livre de si através de uma força divina é o que Camus chama de "suicídio filosófico" — render-se à ilusão religiosa para não ter que encarar a realidade do absurdo por conta própria.

Søren Kierkegaard: O Desespero e o Salto da Fé

  • A vertigem da liberdade: Kierkegaard, o pai do existencialismo cristão, define a angústia como "a vertigem da liberdade". É o medo que sentimos ao olhar para o abismo das nossas infinitas possibilidades de escolha.
  • O desespero existencial: O indivíduo quer ser livre do "eu" frágil, pecador e limitado.
  • O salto da fé: Diferente de Sartre e Camus, Kierkegaard vê essa frase como o ápice positivo da crise existencial. Ao reconhecer a própria insuficiência e desespero, o homem se lança ao absoluto através do "salto da fé", entregando sua existência a Deus.

Simone de Beauvoir: A Ética da Ambiguidade

  • Ambiguidade humana: Somos ao mesmo tempo pura liberdade (sujeitos) e carne limitada no mundo (objetos).
  • Fuga da ação: A frase representa o medo de assumir os riscos éticos das próprias ações. O indivíduo pede para ser poupado do conflito de ter que se projetar e construir o seu futuro em relação à liberdade dos outros.

Em resumo, para o existencialismo, "livrar-se de si mesmo" é o ápice da crise existencial: o momento em que o ser humano desmorona sob o peso de sua própria liberdade e autonomia.

Adiante, temos como a corrente ateísta (Sartre/Camus) difere da corrente cristã (Kierkegaard) diante desse sofrimento, onde a divergência entre o existencialismo ateísta (Sartre/Camus) e o existencialismo cristão (Kierkegaard) diante do sofrimento de "carregar a si mesmo" reside na origem e no destino dado a essa angústia.

Enquanto para os ateus o sofrimento é um fato bruto sem remédio externo, para o cristão ele é o veículo que conduz à salvação. Segue o confronto direto entre as duas correntes: 

1. A Origem e o Sentido do Sofrimento:

  • Corrente Ateísta (Sartre/Camus): O sofrimento é inerente e absurdo. Ele nasce do fato de estarmos jogados em um universo sem Deus, sem regras prévias e sem destino traçado. Não há um "porquê" para a dor de ser livre; ela simplesmente é o preço da existência.
  • Corrente Cristã (Kierkegaard): O sofrimento é pedagógico e espiritual. A angústia diante das escolhas é o sinal de que o homem percebe sua separação de Deus e a finitude de sua carne. O sofrimento existe para quebrar o orgulho da autossuficiência humana.

2. A Resposta à Súplica "Livra-me de mim mesmo"

  • Sartre e Camus (A Recusa da Fuga): Eles respondem que ninguém vai te livrar de você. Recorrer a um "Senhor" é uma ilusão confortável, um ato de má-fé (Sartre) ou um suicídio filosófico (Camus). O homem deve aceitar que está completamente sozinho, abraçar o peso de suas decisões e viver com a angústia. A saída é a revolta e a criação do próprio sentido.
  • Kierkegaard (O Salto da Fé): Ele responde que a libertação é possível através da entrega. O sofrimento e o desespero levam o homem ao seu limite racional. Quando a razão falha em resolver a angústia da existência, o indivíduo dá o "salto da fé". Ele aceita o absurdo de Deus e deposita sua existência no absoluto, encontrando a verdadeira identidade ao se esvaziar de si.

3. O Conceito de Salvação vs. Autonomia:

  • Corrente Ateísta: A "salvação" é a autonomia radical. O homem se torna livre quando para de pedir para ser salvo e assume o controle total de seu destino, mesmo que isso custe uma ansiedade constante. Para Sartre, "o homem é o que ele faz do que fizeram dele".
  • Corrente Cristã: A salvação é a reconciliação. O homem só descobre quem realmente é quando abre mão do controle e se submete à vontade divina. O ápice da liberdade, para Kierkegaard, é a escolha consciente de se render a Deus.

E em razão dos nossos comportamentos cotidianos temos que a má-fé se manifesta através de justificativas universais que usamos para evitar o peso de mudar de vida. Para Jean-Paul Sartre, a má-fé (mauvaise foi) ocorre quando mentimos para nós mesmos para fugir da angústia da escolha e da responsabilidade. É o ato de fingir que não somos livres, tratando-nos como objetos determinados pelas circunstâncias, papéis sociais ou pelo passado.

Exemplos Práticos da Má-fé no Cotidiano

1. O Álibi dos Papéis Sociais (O Garçom de Sartre) 

  • O Conceito: Sartre usa o exemplo de um garçom que se move de forma mecânica e exagerada. Ele está encenando o "ser garçom" para se reduzir a uma função, escondendo sua liberdade de escolher outro destino. 
  • No dia a dia: Quando você diz "Eu sou grosso mesmo, é meu jeito" ou "Preciso agir assim porque sou o chefe". Você usa sua profissão ou personalidade como uma armadura para justificar a falta de esforço em mudar.

2. O Determinismo Biológico ou Psicológico:

  • O Conceito: Culpar a genética, o signo, os traumas de infância ou a criação pelas escolhas atuais.
  • No dia a dia: Frases como "Eu traio porque o homem é monogâmico por natureza" ou "Não consigo guardar dinheiro porque sou de Gêmeos". O indivíduo transfere a culpa de suas ações para forças das quais ele afirma não ter controle.

 3. A Vitimização das Circunstâncias:

  • O Conceito: Fingir que não há alternativas viáveis em uma situação, reduzindo as opções a uma única saída inevitável.
  • No dia a dia: Permanecer em um emprego abusivo ou relacionamento tóxico alegando: "Não tenho escolha, o mercado está difícil" ou "Fico por causa dos filhos".

Para Sartre, sempre há escolha (inclusive a de sair e arcar com as consequências dolorosas). Não escolher já é uma escolha.

4. A Procrastinação Conivente: 

  • O Conceito: Adiamento infinito de uma decisão importante sob o pretexto de que "ainda não é o momento certo".
  • No dia a dia: "Vou abrir meu negócio assim que a economia melhorar" ou "Vou estudar quando tiver um computador melhor".

A pessoa cria condições externas ideais impossíveis para nunca ter que arriscar e falhar.

O Oposto da Má-fé: A Autenticidade - A saída da má-fé é a autenticidade. Ela exige reconhecer que:

  • O passado nos molda, mas o presente nos dá total liberdade de escolher o que fazer com o que fizeram de nós.
  • Toda escolha anula outras possibilidades, e o sofrimento dessa perda faz parte do amadurecimento existencial.

Como Sartre sugere quebrarmos o ciclo da má-fé no dia a dia ... Para Jean-Paul Sartre, quebrar o ciclo da má-fé não depende de uma fórmula mágica, mas de uma mudança radical de postura chamada: 

  • Conversão Existencial. Romper com a má-fé significando buscar a autenticidade (authenticité), assumindo o controle total sobre a própria vida.

 Sartre sugere quatro passos fundamentais para quebrar esse ciclo no dia a dia:

 1. Praticar a Transparência Radical Conosco: 

  • Identificar as desculpas: Monitore suas próprias justificativas diárias. Sempre que usar expressões como "eu não tive escolha" ou "eu sou assim mesmo", pare e questione a veracidade dessa afirmação.
  • Diferenciar o factual da escolha: Aceite que os fatos da sua vida (sua altura, sua cidade natal, seu passado) são dados imutáveis (facticidade), mas a forma como você reage a eles hoje é uma escolha puramente sua (transcendência).

 2. Assumir a Responsabilidade Total (Sem Culpar os Outros):

  • Eliminar o papel de vítima: Pare de culpar o sistema, seus pais, a economia ou seu parceiro pelas suas insatisfações atuais. Para Sartre, se você tolera uma situação, você a escolheu de forma implícita.
  • Acolher as consequências: Compreenda que escolher um caminho envolve perder outros. Assuma o erro caso a sua decisão dê errado, em vez de terceirizar o fracasso para as circunstâncias.

 3. Agir em Vez de Apenas Desejar: 

  • O homem é a soma de suas ações: Sartre afirma que as intenções não valem nada sem atos. Você não é um "escritor frustrado", você é alguém que não escreve. Você não é um "gênio incompreendido", você é o que realiza no mundo real.
  • Romper o ensaio mental: Reduza o tempo gasto planejando cenários ideais e dê o primeiro passo concreto. A identidade se constrói na ação, não na imaginação protelatória.

 4. Suportar a Angústia Necessária: 

  • Aceitar o desconforto: A angústia não é uma doença a ser curada, mas o sintoma de que você percebeu sua própria liberdade. Sentir medo diante de uma grande decisão é o sinal verde de que você está saindo da má-fé.
  • Abandonar o desejo de garantias: Entenda que nenhuma escolha vem com selo de aprovação ou garantia de felicidade. Viver de forma autêntica exige coragem para caminhar no escuro das incertezas existenciais.

Então, considerando o conceito de "liberdade situada" (como nossas escolhas reais operam dentro dos limites do mundo), detalho que referido conceito - "liberdade situada" -  (desenvolvido por Jean-Paul Sartre e profundamente expandido por Simone de Beauvoir) é a resposta do existencialismo à crítica de que a "liberdade absoluta" seria uma utopia.

Sartre nunca disse que podemos fazer tudo o que queremos (como voar ou ficar ricos num piscar de olhos). Ele defendia que somos totalmente livres, mas a partir de uma situação concreta.

Abaixo estão os pilares de como as nossas escolhas reais operam dentro dos limites do mundo:

1. O Encontro entre Facticidade e Transcendência

A liberdade situada é o ponto de equilíbrio entre duas forças:

  • Facticidade (O Dado): São os limites que não escolhemos. O seu corpo, a sua época histórica, a sua classe social, o seu país de nascimento e o seu passado. Isso constitui a sua "situação".
  • Transcendência (A Escolha): É a sua capacidade de projetar o futuro além desses dados.
  • A intersecção: A liberdade não existe no vácuo. Você só é livre em relação aos seus limites. Um obstáculo (como uma montanha ou uma crise econômica) só se torna um obstáculo porque você escolheu um projeto (como atravessar a montanha ou abrir uma empresa).

 2. O Limite Não Anula a Escolha, Ele a Cria

  • O paradoxo existencial: Os limites do mundo não destroem a liberdade; na verdade, eles dão tração a ela. Se não houvesse barreiras, nenhuma escolha teria peso ou significado.
  • Exemplo prático: Se você está preso em uma cela, você não tem a liberdade física de sair para caminhar. No entanto, você mantém a liberdade situada de escolher como habitar essa situação: você pode odiar seus carcereiros, planejar uma fuga, escrever um livro na mente ou ceder ao desespero. A situação limite exige uma postura.

3. A Contribuição de Simone de Beauvoir: A Situação Social

Enquanto Sartre focava na metafísica da escolha, Simone de Beauvoir trouxe a liberdade situada para a realidade sociopolítica, onde:

  • A opressão real: Beauvoir apontou que algumas situações são tão violentas e restritivas (como o machismo estrutural, o racismo ou a pobreza extrema) que reduzem a capacidade do indivíduo de agir.
  • A mistificação: Quando a situação de uma pessoa é tão limitada que ela sequer sabe que pode escolher caminhos diferentes, ocorre a mistificação.

 Nesses casos, a luta política é necessária para abrir margens de manobra para que a liberdade situada volte a operar.

 4. Resumo Prático: O Tabuleiro de Xadrez

 Imagine a liberdade situada como um jogo de xadrez em andamento:

1.      Você não escolheu as regras do jogo.

2.     Você não escolheu a posição atual das peças no tabuleiro (seu passado/sua realidade atual).

3.      Mas a próxima jogada é inteiramente sua. Você não pode mover as peças de qualquer jeito, mas dentro das regras e da situação atual, as possibilidades de estratégia ainda são infinitas.

Concluindo este panorama existencialista, analiso o famoso dilema do estudante de Sartre — que ilustra perfeitamente a angústia da liberdade situada na prática. O dilema do estudante de Sartre, apresentado em sua famosa conferência O Existencialismo é um Humanismo (1945), é o exemplo prático perfeito de como a liberdade situada opera no limite da angústia.Durante a Segunda Guerra Mundial, um jovem estudante francês procurou Sartre para pedir um conselho diante de uma escolha dilacerante.

O Cenário do Dilema 

O estudante estava dividido entre duas opções mutuamente exclusivas, inseridas em uma situação histórica específica (a ocupação nazista na França):

1. A Opção Afetiva (Facticidade Local): Ficar em casa com sua mãe. O irmão mais velho havia sido morto na ofensiva alemã e o pai era um colaborador nazista. A mãe vivia imersa na dor e o jovem era seu único pilar de sobrevivência emocional. Ficar significava salvar uma vida concreta.             

2. A Opção Política (Transcendência Coletiva): Partir para a Inglaterra e se juntar às Forças Francesas Livres para lutar contra o nazismo. Isso significava abandonar a mãe (provavelmente condenando-a à morte psicológica) em nome de um ideal maior e abstrato de liberdade para o seu país.

A Insuficiência das Respostas Prontas

O jovem percebeu que nenhuma resposta externa — seja moral, religiosa ou filosófica — poderia resolver o seu problema: 

  • A Moral Cristã: Diz para "amar o próximo" e "sacrificar-se pelo outro". Mas quem era o próximo com maior direito? A mãe (amor concreto, impacto imediato) ou a pátria (causa justa, impacto incerto)?
  • A Moral Kantiana (Dever): Diz para nunca tratar as pessoas como meios, mas como fins. Se ele partisse, usaria a mãe como meio para atingir a libertação da França. Se ficasse, usaria as forças de resistência como meio para proteger seu bem-estar familiar.
  • O Sentimento/Instinto: Se ele tentasse medir o tamanho do seu amor por cada causa para decidir, Sartre argumenta que o valor de um sentimento só é provado depois que você age. Ele só saberia que amava mais a mãe se ficasse com ela.

A Resposta de Sartre e a Resolução Existencial

Diante do impasse, a resposta de Sartre foi direta e desconcertante:

"Você é livre, escolha, ou seja, invente."

A partir desse dilema, compreendemos os pilares finais da liberdade situada:

  • A solidão da escolha: Nenhuma regra moral prévia pode tirar o peso da decisão das costas do indivíduo. Nem mesmo procurar Sartre era neutro: ao escolher um filósofo existencialista (e não um padre católico ou um general), o estudante já sabia, no fundo, que tipo de resposta estava buscando.
  • O valor é criado pelo ato: Não existe uma escolha "certa" flutuando no universo. O caminho escolhido só se tornará o correto porque o jovem dedicou sua existência a ele de forma autêntica. 
  • A conexão com a frase inicial: Quando o estudante sente o estômago revirar diante dessa encruzilhada, ele experimenta a angústia de carregar o próprio destino. Ele entende, na pele, o peso do clamor "livra-me de mim mesmo": o desejo de que alguém decida por ele para poupá-lo da dor de ser o único autor de sua história.

Desse modo, fecho aqui a jornada desde a súplica inicial até a responsabilidade radical da ação, parabenizando os homenageados!

Por: Roberto Costa Ferreira, 22juL26.
Prof.Pesquisa,Pedagogista,Med-MEng
HILASA-SP-Instit.História Letras Artes
Santo Amaro - SÃO PAULO - SP.