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Tela 1 - Isabela |
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Tela 2 - Isabela |
Quando vi o resultado da produção, em duas telas postas em tela de minha neta Isabela, pensei na significação do Ser e sua consequente "Potencia de Ser". Espinoza, Baruch de Espinoza, nascido Benedito Espinoza, foi um dos grandes racionalistas e filósofos do século XVII, dentro da chamada Filosofia Moderna, ao lado de Descartes e Leibniz que sobre isso discorreu. Mas, nesta oportunidade não pretendi ir tão longe...
Pense em algo, pense em qualquer
coisa, ela é possível de existir? Digo, ela tem contradições internas que
impedem sua existência? Não? Então ela existe? A resposta é: não
necessariamente, isso apenas faz com que esta coisa tenha a possibilidade de
existir… conhecer a essência de uma coisa, saber que ela é possível, não a
torna necessária, mas, estas duas produções para mim são imprescindíveis,
possíveis e reais!
Mas o que faz algo efetivamente
existir? Ou ela é produzida por si própria ou por outra coisa. A potência de
uma coisa existir está em si mesma ou vem de fora. No nosso caso, somos versões
reduzidas desta potência de existir, somos causados por forças exteriores que
nos engendraram e, ao mesmo tempo, temos em nós parte destas forças que nos
permitem existir. O finito reflete o
infinito, ou seja, somos parte de um ser absolutamente infinito que
existe em si mesmo e se produz necessariamente, chamá-lo-emos Deus!
Deus é o mundo, Deus é a
Natureza. São dois nomes para uma única e mesma coisa. É preciso conhecer a
natureza, o máximo que pudermos, se quisermos conhecer Deus. Ele não é
exterior, ele é a causa interior de tudo que existe. A causa da essência e da
existência de tudo, a causa imanente, não transitiva, ou seja, agindo em nós.
Deus não gera o mundo por livre vontade, ele é o mundo por pura necessidade de
sua essência.
“Deus não produz porque quer, mas porque é”. É o conjunto de leis e a
própria matéria que nos sustenta!”
A realidade, como um todo, é um
devir de produção e criação. Esta existência é absoluta em todos os aspectos: infinita e eterna. O Deus de Espinoza é
a potência infinita de expressão e atualização, não há nada fora dele, nada o
limita, nada está para além de sua existência. Deus é causa sui, ou seja, ele é
definido por sua potência de ser, existir e produzir. Isso significa que a
unidade de Deus se manifesta através da multiplicidade: a expressão de Deus se
dá na diferença!
Deus é a causa de todas as coisas
que existem. Ele é a causa imanente, não transitória; ele não cria o mundo e
vai embora, muito pelo contrário, o mundo é ele mesmo, ele se manifesta através
do mundo. Cada essência, eu, você, todas as coisas, cada modo afirma-se em
Deus, em maior ou menor grau. E ele se exprime absolutamente e infinitamente
através dos atributos, dos quais só conhecemos dois: pensamento e extensão.
Nós, seres limitados por natureza, exprimimos parte da potência infinita de
Deus; esta potência em ato é chamada de Modo, segundo o referido Espinoza.
Assim, esse modo, como essa
potência se manifesta? Através do poder de existir, de afetar e ser afetado.
Como parte da potência infinita de Deus, eu tenho em mim forças que se esforçam
para manterem-se na existência. É o conatus,
uma força ativa que se esforça (tal como Deus), para produzir. Conatus é um conceito
importantíssimo, além de muito elegante, porque com ele Espinoza pode
estruturar, juntamente com sua noção de Deus, toda sua Ética. Este
termo vem do latim e significa “esforço”, influenciando Schopenhauer e posteriormente
o conceito de Vontade de Potência em Nietzsche, além de ter grande
importância para Bergson e Deleuze, significativos filósofos.
Se a essência de Deus é a de ser
a causa de si, então ele necessariamente existe e ao mesmo tempo é causa de
tudo que existe. Nós não temos essa sorte, não somos causas de nós mesmos,
somos parte de uma cadeia infinita de acontecimentos que nos trouxeram até
aqui. E mais, esta potência que existe em ato, ativamente, tem características
singulares de afetar e ser afetado. Existir é a tal capacidade, de afetar e ser
afetado, é agir no mundo. Então, essência é um grau de potência, “conatus”, que se esforça para permanecer
existindo; toda existência é, pela garantia das causas naturais, necessária, já
que é expressão de um grau certo de potência divina. Essência é potência!
Somos corpos, limitados em
extensão e duração, modos, como diria Espinoza, mas os modos estão em Deus.
Isso significa que afirmar a minha potência é afirmar o que há de divino em
mim. Tomar parte da potência é expressar o que há de Deus em você, ser causa
ativa na criação do mundo. Toda expressão da potência é boa, sem exceção, por
quê? Porque “a potência é a manifestação
do Infinito no seio do finito”, ela é a força de composição do universo que
gera bons encontros. A questão ética é então efetuar sua potência, da mesma
maneira que Deus, ou, a natureza, o faz.
Fazemos isso através do corpo e
todos os seus atributos. O corpo é um conjunto de relações que estão em uma
determinada harmonia. Estas forças se conjugam de forma que mantém a sua
proporção de velocidades e repousos entre as partes. O conatus - esforço - é a capacidade deste corpo manter a sua forma.
O que pode um corpo? Ele pode o quanto ele tem potência. Um moralista define o
corpo pelo que ele deve; mas, os imoralistas convictos definem o corpo pelo que
ele pode. Não sou um escravo aqui com um lugar garantido no céu, isso é pura
ilusão para aguentar o sofrimento. Eu sou o que eu posso, eu sou minha
potência, que é a minha essência em ato. Eu sou tão perfeito quanto eu posso
ser.
Mas então eu posso anular esta
obra? Posso, eu provavelmente tenho potência para isso. Então eu posso esquecer
e deixar de evidenciá-la? Posso também, se eu tiver potência para tanto. Mas
isso será um bom encontro? (Esta é a diferença entre poder e potência). A questão ética do “efetuar a sua potência” gera
muitas confusões! Efetuar sua potência é necessariamente agir para gerar bons
encontros, ou seja, compor com o mundo. Expô-las aos quatro ventos!
Pense em um quarteto de cordas:
eu tenho a capacidade de tocar violino, mas se estiver nervoso, eu posso tocar
fora do tom e arruinar a música. Eu posso também tocar isolado de outros
instrumentos, e neste caso nada aconteceria. Ou este ato de vibrar as cordas do
meu violino pode se compor com a harmonia da música que está sendo tocada pelos
meus companheiros. Neste caso, as cordas ressoam entre si, isto é o aumento de
potência. Há "ressonância".
Eu atuo no mundo. E esta ressonância é a capacidade de identificar um
movimento, bastando o encontro de duas vibrações semelhantes, ainda que ricas
em diferenças, para haver ressonância!
Eu ponho a música que eu amo,
aqui, todo meu corpo, e minha alma – isto vai por si – compõe suas relações com
as relações sonoras. É isto que significa a música que eu amo, a obra que eu
admiro: “minha potência é aumentada”.
E quando a música ressoa em mim, eu começo a bater o pé no ritmo, isso me
alegra, a música por sua vez também se alegra, contagia (ela efetuou um bom encontro).
Quando eu coloco um fone de ouvido e danço no ritmo, a música se alegra tanto
quanto eu. Tudo isso se dá para além da consciência. Eu chego em casa e digo
para um familiar, “tal música é muito boa“, ainda estou efetuando bons
encontros. Quando faço uma poesia para a mulher amada, quero que a as relações
de velocidade e lentidão presentes na poesia afetem de modo a aumentar a
potência da mulher que amo. E assim por diante…
Então o agir é agir pela
potência, agir é sempre ir em direção da liberdade. Potência e Ética estão
muito próximas, assim como Moral e Poder. A afirmação do ser é uma abertura
para o infinito, ele multiplica as relações, aumenta nossa capacidade de afetar
e ser afetado. Nós somos uma composição de partes em relação. Estas partes
mantêm uma proporção e uma singularidade próprias. É como se tivéssemos uma
vibração própria, "um timbre", podemos pensar no corpo como uma caixa
de ressonância; certas forças me atravessam e ressoam em mim, quando isso
acontece, geram um bom encontro, minha potência de agir aumenta; no entanto,
outras forças me atravessam e diminuem minha potência, então minha potência
diminui.
Já o Timbre, onde alguns
filósofos preferem identificar como essência, esse nome mais sonoro é singular,
é distintivo, particular, não deixando de ser composição, ressonância e
multiplicidade. E tal e tão variados são os timbres quanto são os corpos, as
telas produzidas por Isabela, em relação. O corpo é nosso instrumento ético. A
potência do meu ser se expressa através destas relações de proporção entre
velocidade e repouso, preparo e pintura. Tal como a música, tal como a dança, a
potência do ser é sua capacidade de gerar bons encontros e suportar maus
encontros sem perder suas proporções. Somos corpos que vibram ao som das cerdas dos pinceis, da música
divina... Que grande festa é uma orquestra. Quão maravilhosas tais obras!
Disse Zaratustra certa vez:
“para vos revelar inteiramente meu coração,
meus amigos: caso houvesse deuses, como suportaria eu não ser deus? Portanto,
não há deuses”. (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra).
Temos assim, uma resposta
lindíssima que podemos reinterpretar aos olhos de Espinoza: “Vós
sois deuses“!
Roberto Costa Ferreira,
20 de Junho de 2019.
"Quero fazer da vida o ofício de
esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis"!
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Isabela, a minha neta. |
"Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis"!
ResponderExcluirBelo caminho. Das telas de Isabela ao racionalismo moderno. No meu entender a Ética foi a maior contribuição de Spinosa para o patrimônio filosófico da humanidade. Quanto à identificação de Deus com a Natureza, parece mais uma artimanha para escapar das garras da hierarquia judaica de Amsterdam que o acusava de ateísmo. Ficou em cima do muro.
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