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terça-feira, 16 de maio de 2023

Rita Lee Jones de Carvalho – Personalíssima!

 


Dias antes do Dia das Mães - 08 de Maio de 2023, contando 75 anos de vida - Rita Lee Jones de Carvalho - personalíssima, se foi

Parafrasear nesta expressão a José Blotta Júnior, dito "a elegância no ar", advogado brasileiro, imortalizado entre os brasileiros como "Blota Júnior", que nascido na paulista Ribeirão Bonito em 03 de março de 1920 e morreu em São Paulo no dia 22 de dezembro de 1999, ganhando notoriedade como locutor e apresentador de televisão

 

Formado em Direito, começou no jornalismo na Rádio Bandeirantes como locutor esportivo. Mas foi na Rádio e TV Record que ganhou fama, atuando por 45 anosEle, Blotta Jr. serviu-se do slogan de "A Personalíssima" destinada à originalidade que lhe permitiu destaque nacional, alcançado, naquela época apenas por cantoras do Rio de Janeiro, referindo-se a Isaura Garcia (26/02/1923-30/08/1993).

 

Ao contrário do "poetinha" Vinicius de Moraes que adorava diminutivos, ela ficava brava quando a chamavam de Isaurinha, tornando seu sotaque paulistano do Brás, divisa com a Moóca, ainda mais acentuadoPois bem, sirvo-me do mesmo slogan "A Personalíssima" para, produzindo esta síntese e trazendo à pauta tal expressão, referendar a importância de Rita Lee no cenário nacional com reconhecimento internacional. Não poderia ser menor a alusão histórica! 

 

Desse modo, foi-se agora, mas já houvera ido anteriormente, ainda nesta dimensão existencial ... E irá e retornará sempre, "in memoriam", pois que, reitero, "ela é personalíssima" e, quer queira ou não "está no centro de toda e qualquer reflexão, mesmo comportamental"



Fundamento mais, mesmo em razão do PRINCÍPIO FUNDAMENTAL DA DIGNIDADE HUMANA E SUA CONCRETIZAÇÃO JUDICIAL, bem descrito no item 1 - A pessoa humana como fundamento, medida e fim do direito

 

"No centro do direito encontra-se o ser humano. O fundamento e o fim de todo o direito é o homem, em qualquer de suas representações: homo sapiens ou, mesmo, homo demens; homo faber ou homo ludens; homo socialis, politicusœconomicus, tecnologicus, mediaticus. Vale dizer que todo o direito é feito pelo homem e para o homem, que constitui o valor mais alto de todo o ordenamento jurídico. Sujeito primário e indefectível do direito, *ele é o destinatário final tanto da mais prosaica quanto da mais elevada norma jurídica. Constitui lugar comum a afirmação de que o interesse público ou social deve prevalecer sobre o individual

Mas isso é apenas pensar no homem de forma coletiva. Quando se prioriza um interesse público ou social em detrimento de um interesse individual, supõe-se estar a tutelar, ainda que de forma indireta, o interesse de um número maior de pessoas, ainda que não individualizadas. Assim, seja por que ângulo for, "o ser humano está no centro de toda e qualquer reflexão jus-filosófica". 

* TOBEÑAS, José Castan. Los Derechos de la Personalidad1952, p. 6.

 

Fato que poucos sabem ou lembram-se, quando se foi ... Quando foi expulsa dos Mutantes, em 1972, Rita Lee foi para Londres e foi visitar seu amigo, o cantor e compositor Gilberto Gil. A cidade moderninha e estilosa - um clássico era a cara dela: terra da recém-criada minissaia, do rock, dos Beatles, momento que a passagem na cidade foi marcante e simbólica para ela. A Londres que Gil apresentou à Rita Lee deu muito mais do que ela buscava. Novos amigos, por exemplo. A cidade moderninha e estilosa - um clássico - era a cara de Rita Lee. Terra da recém-criada minissaia e, claro, do rock.

Dos Beatles, que ela amava, Rita contava que "literalmente lambeu a maçaneta da porta" do estúdio da banda - porque John Lennon tinha encostado na maçaneta. Rita viveu na cidade histórias em tese impublicáveis, não para ela: na autobiografia, contou que foi parar no camarim da lendária banda britânica YesDisse que acordou "numa cama rodeada de um monte de outros achados e perdidos humanos”. A viagem mexeu com a cabeça dela!



Rita resultou, neste passamento, mais comentada na Europa do que muita gente que se entende influente, até no cenário político! Isso eu pude comprovar uma vez aqui em trânsito, no alto dos meus 73 anos de vida, já ela somando 75 anos em sua partida. Canais de televisão se expressaram, assistido por mim, em trânsito pela Espanha - Madri/Ibiza de Europa, bem como noticiários de jornal:

  • El País (Espanha) assim se manifestou, virando pauta, segundo minha tradução: 

"Rita Lee, a rainha do rock brasileiro, morre aos 75 anos;

  • Outro jornal, na América do Norte - ABC News (Estados Unidos), em vertida tradução, disse igual: 

"Rita Lee, a rainha do rock brasileiro, morre aos 75 anos"

  • Seguiu também, em igual mensagem: The Derrick (Estados Unidos):

"Rita Lee, a rainha do rock brasileiro, morre aos 75 anos". 

 

Na América do Sul todos os meios jornalísticos se manifestaram ... Em suma, Rita Lee foi assunto na mídia internacional! 


Na Infância habitamos o mesmo bairro - Vila Mariana/SP. e por lá ela permaneceu até 1977. Reforço minhas palavras indo buscar nas notícias da revista mensal sediada nos Estados Unidos - Rolling Stone - que se dedica à música e cultura popular, inclusive, criada em 1967, por Jann Wenner, edição brasileira: 

 

"Rita Lee nasceu em São Paulo, capital, em 31 de dezembro de 1947. Foi levada para um casarão dos anos 1920 construído na Vila Mariana, uma das muitas artérias importantes do coração da cidade, altura da Rua Joaquim Távora ... Foi em um casarão do anos 1920 na referida rua Joaquim Távora, na Vila Mariana, zona oeste da cidade, que Rita nasceu. É com carinho que ela retratou o imóvel, cujo porão era forrado com fotos de artistas de cinema, e que hoje é sede da Igreja Presbiteriana do Parque Americano. R. Joaquim Távora, 670, Vila Mariana, região sul de São Paulo, neste endereço, receberam-na Charles e Chesa Jones, ditos os paisEle, inglês. Ela, italiana. Uma junção de etnias improvável durante a época, mas feita da mesma maneira. Também esperavam pela bebê Balú e Carú, “afamiliadas" dos Jones, e Mary e Virgínia, as irmãs de sangue, 10 e seis anos mais velhas, respectivamente"

 

A família Jones era uma "típica extensão imigrante da São Paulo pós-guerra". A mãe italiana bastante religiosa e gentil até; o pai norte- americano muito rígido e reservado, criavam as filhas numa mistura de disciplina (quando Charles estava pela casa) e diversão musical (quando ele viajava para pescar e Chesa abria espaço na sala de jantar para uma pista de dança, ou até mesmo o piano de armário para calçada)

 

As três meninas passavam o tempo criando gatinhos escondidos no porão, ensaiando peças de autoria própria num palquinho no jardim, ou deleitando-se nas dezenas de cinemas de rua de São Paulo, naqueles tempos. Ritinha, a mais novinha, amava a figura do Peter Pan e acrescentava, aos devaneios teatrais, histórias sobre a Terra do Nunca e Sininho. Na varanda de casa, declarava para os céus, ter visto Peter Pan uma vez. Ou achou que viu: o pai, aficionado por ficção científica, explicou que as luzinhas dançantes eram nada além de OVNIS

 

Quando tinha cinco anos, Ritinha foi abusada sexualmente. Um técnico de máquinas de costura foi até a casa dos Jones, e a criança brincava no chão enquanto a mãe foi atender o telefone. Voltou para ver a filha com uma chave de fenda introduzida na vagina, sangrando! 

Na autobiografia, Rita Lee admite que não lembra bem do ato do "filho da puta", como se sua memória tivesse sido apagada. Mas as mulheres da casa sentiram toda a dor da perda por ela. Fizeram-na jurar não contar para o pai, pois ele provavelmente mataria o técnico. Como recompensa, compraram o álbum de figurinhas do Peter Pan que ela o preservou

 

Para Rita, a tragédia fez com que as adultas passassem a fazer vista grossa para as malcriações e atitudes mal pensadas dela. Não levava tapas quando criança (ao contrário das irmãs) e todos os problemas da vida adulta, como escapadas, drogas, brigas... Muito em decorrência e por causa "da dor que ela carregava na alma” por causa 'daquilo.' 

 

Como uma típica criança paulistana, Rita Lee também passava as férias no Guarujá/SP. O pai comprou um apartamento por lá, e como ele quase nunca estava nas viagens, sobrava liberdade para as meninasA caçula bandeava-se com os meninos da rua e ia cometer pequenos delitos - hábito que levou para São Paulo. Hora com os vizinhos, hora com a irmã Virgínia, Ritinha amava pregar peças e "causar" pela Vila Mariana. Mas sentia-se um menino perdido, fazia birra pro banho e cantava paródias infantis (de crianças de boca suja).

 

Também no Guarujá, as meninas Jones amavam "espiar" as glamourosas festas do Gran Cassino. Eram fissuradas pela fama e por todo o luxo e charme das celebridades cinquentonas. Deleitavam-se ouvindo do pai dentista as histórias dos famosos pacientes, e usavam o porão da casa em São Paulo como santuário: nas paredes, penduravam fotos de artistas, recortes de revistas, e até um guardanapo (presente de Charles) no qual Maysa Matarazzo limpou o batom antes de um tratamento dentário

Mas a verdadeira paixão de Rita Lee (dividida com a irmã Virgínia, claro) era James Dean. Sonhou com ele aos oito anos, e não mais o esqueceu. Colecionava recortes brasileiros e gringos sobre o astro, tinha pôsteres e álbuns. Até a vida adulta, depois dos Mutantes e Tutti Frutti, a estrela mantinha pôsteres de James Dean nas paredes do quarto. Era amor! 

 


Rita Lee desde pequena herdou roupas de primos - ao passo que as irmãs, mais sortudas, eram pouco menores que algumas primas. Um dia, Chesa ouviu dizer que cabelos compridos impediam o crescimento da criança, e cortou as madeixas da filha bem curtinhas. Virgínia e Mary a apelidaram de "Rito", o menino baiano. Foi com esse “cortezinho” que a menina foi para o sítio da tia, no interior de São Paulo, ela cuidava das galinhas, arrumava o jardim, e brincava para lá e para cá. Foi quando percebeu a "central de açúcar" do lugar. Caldo de cana, melaço e... Pinga!

 

"Assim aconteceu meu primeiro mega porre e um cartão vermelho para "tirar do time de campo da fazenda". 'Oh my God! O defeito da Ritinha é não saber onde parar', profetizou tia Mary." A menina amou o Fundamental I. Sentia na escola uma liberdade que o pai não dava. Mas foi entrar no Fundamental Il para mudar de opinião. Papeava o tempo todo, e era detestada por alguns professoresUm pouco mais velha, causava de verdade: fumava nos banheiros, fazia xixi nos sapatos das meninas, ameaçava bater nos outros. Até tacou fogo no cenário de uma peça pois não foi escolhida como protagonista! Compensava tudo sendo ótima nos esportes, porém

 

Quando se formou no colégio, Rita tentou ser secretária. Não deu certo - derrubou café em vários documentos importantes.. Decidiu voltar a estudar, então, e começou a cursar Comunicação da USP. Nunca terminou pois outro aspecto chamou atenção: a música. (Nessa época, marco importante de Rita Lee, ganhou a filhotinha Danny, a primeira cachorrinha da vida dela)

Como Charles, seu pai, falava inglês e era dentista de vários artistas e famosos estrangeiros, tratando, entre outros ilustres, Magdalena Tagliaferro, excelente pianista, o doutor sugeriu uma troca: o tratamento por aulas de piano para a filha mais nova. Ela topou. Apesar de descrente inicialmente, viu em Ritinha um talento, e elogiou o progresso rápido que ela teve

 

A pianista estava impressionada, e convidou a menina, então com seis anos, para uma audição na escola Tagliaferro. Emocionada, Chesa costurou para ela um vestido cor-de-rosa cheio de babados, e a família foi assistir a pequena. Mas Rita sentiu-se bastante nervosa quando viu a plateia. Subiu ao palco, sentou- se no banquinho para apresentar-se e... Fez xixi! Medo de palcodiagnosticou a pianista profissional. Não recomendou um futuro na música.

 

Demorou alguns anos para Rita Lee pensar em música de novo. Começou, na adolescência, a fazer o backing vocal do Tulio Trio, pianista que imitava Ray Charles no auditório da Folha de S. Paulo. Ele morreu num acidente. Mas Rita queria continuar, e formou o primeiro grupo musical da vida: as Teenage Singers: Jean Ellen no teclado, Beatrice no baixo, Suely na guitarra, Rita Lee na bateria. Cantavam bem, tocavam mal... E vejam no que resultou, para o bem de quem a viu, conheceu, conviveu e ou apreciou ... A "Cacilda Becker do Rock," definida por Glauber Rocha, segundo contou ela no livro! 

 

Rita Lee deu o primeiro passo, também, numa das suas manias mais encantadoras da carreira: as roupas. Naquele dia, na TV Bandeirantes, no programa Quadrado e Redondo, embora quisesse se vestir de Cleópatrausou uma roupa à Pocahontas... "Foi a partir de então," escreveu Rita:

que aceitei me transformar em para raio de freaks, porto seguro dos “rebeldinhos sem causa”, musa dos perdidos numa noite suja da Pauliceia [...] O importante era não me levar à sério. Eu seria apenas mais uma impostora [entre os artistas]. Só que mais esquisitinha”. 

 

Lá pelos idos de 1975 tive a oportunidade de estar presente num momento de sua vida, situação que conheci “uns caras” de uma banda chamada Lisergia. Eram eles: Luis Sérgio que tocava guitarra, Emilson Colantonio bateria e Lee Marcucci no baixo. Junto, estava presente uma moça, que se dizia empresária: Mônica Lisboa e estavam num ensaio onde surgiu também Antônio Bivar, então escritor e dramaturgo, devendo ter uns 35 anos na oportunidade, no porão "fedorento" do teatro Ruth Escobar. Bivar sugeriu então um nome pro grupo, surgindo então Tutti Frutti que depois prevaleceu “Rita Lee & Tutti Frutti". O público que assistia às apresentações iam ao delírio quando Rita cantava. Recebeu ela, pela primeira vez, aplausos sinceros! 



Ela que viveu na Vila Mariana até 1977, momento de assinatura do divórcio resultado do casamento com Arnaldo, parceiro dos Mutantes e, nascimento do Beto Lee, primeiro filho da artista com o musico carioca Roberto de Carvalho que conhecera em 1976, seguido do nascimento de João em 1979, e Antônio em 1981, proporcionando uma parceria musical e amorosa de sucesso, até a final existência neste plano! 

 

Durante um show em São Paulo, 1990 ... Minha irmã esteve com ela no Camarim, situação que se materializou registrada na foto e, segundo afirma Mary, ter dito a Rita que "muitas pessoas a achavam muito parecida com Rita Lee”, momento que, Rita em natural gargalhada espalhou-se pelo sofá do camarim proferindo a frase assertiva: "Impossível você ser parecida a mim ... Você é muito bonita!". Mary, mesmo constrangida pela espontaneidade também sorriu, ao que concordou seu namorado de então: "Verdade, também acho a Mary linda!". Na foto que se segue, resultou a prova dos sorrisos.  


Em dezembro de 1996, Rita realizou seu casamento civil com Roberto de Carvalho, passando a assinar Rita Lee Jones de Carvalho que a acompanhou até o final de sua vidaEm abril de 2013 concedeu uma rara e franca entrevista à revista Marie Claire, momento que disse que:


"o grande tabu da mulher atual é o envelhecimento""Para envelhecer com dignidade, a mulher tem de ter desapego. É muito complexo!"

Em março de 2014 decidiu deixar de pintar os icônicos cabelos vermelhos e assumir os fios grisalhos. "Quero ficar anônimadisse ela. Rita era vegana e defensora dos direitos dos animaisdeclarando ainda sofrer de transtorno bipolar


Uma artista a frente do seu tempo. Julgava inapropriado o título de "rainha do rock”, mas o apelido faz jus a sua trajetória, justificada e personalissimamente, bem lembrando a frase da sexóloga Marta Suplicy para a distância existencial promovida pelo seu passamento, em face de Roberto de Carvalho,, seu amor

"A distância pode separar dois olhares mas nunca dois corações!

Inteligente, bonita, engraçada e talentosa. Rita Lee Jones de Carvalho foi tudo isso. Envelheceu graciosamente, ganhando o carinhoso apelido de "Titia do Rock nacional", algo que corresponde à realidade, totalmente 



Roberto Costa Ferreira, 13  Maio  2023 

Professor -  Psicanalista Pesquisador 

UNIFESP-Universidade Federal S.Paulo 


domingo, 9 de abril de 2023

O sacerdote na celebração do Mistério Pascal – o Tríduo do Senhor crucificado, morto e ressuscitado! Domingo de Ramos ... Um estudo, artigo de Revisão - 2023.

 


A Semana Santa é o centro do ano litúrgico: revivemos, nesses dias, os momentos decisivos de nossa redenção. A Igreja nos conduz pela mão, nesta oportunidade, com a sua sabedoria e a sua criatividade, do Domingo de Ramos até a Cruz e a Ressurreição. No coração do ano litúrgico pulsa o Mistério Pascal, o Tríduo do Senhor crucificado, morto e ressuscitado. Toda a história da salvação gira ao redor destes dias santos, que passaram despercebidos para a maior parte dos homens, e que agora a Igreja celebra “do nascer ao pôr do sol”. Todo o ano litúrgico, resumo da história e da relação de Deus com os homens, surge da memória que a Igreja conserva da hora de Jesus: quando,

“tendo amado aos seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”- Jo 13, 1-15, pois que,  

    "Amar até o fim é insistir mesmo quando rejeitado.

    Amar até o fim é perdoar quem não pediu perdão.

    Amar até o fim é ir até a boca do perigo para resgatar quem está ameaçado.

    Amar  até o fim é esperar o tempo que for preciso, sem desanimar.

    Amar até o fim é não desistir de amar.

    É o amor que põe a fé em ação.

    É o amor que transforma a esperança em realidade".

Nesta sintonia, a Igreja estende nesses dias a sua sabedoria maternal para nos introduzir nos momentos decisivos da nossa possível redenção. Assim, se não oferecermos resistência, seremos levados:

·         pelo recolhimento com o qual a liturgia da Semana Santa nos introduz na Paixão,

·         pela unção com que nos move a velar junto ao Senhor,

·         pela explosão de alegria que emana da Vigília da Ressurreição.

Muitos dos ritos que vivemos nesses dias têm suas raízes em tradições muito antigas: sua força está aquilatada pela piedade dos cristãos e pela fé dos santos de dois milênios. Desse modo o Domingo de Ramos é o pórtico que precede e prepara o Tríduo Pascal:

“Neste umbral da Semana Santa, já tão próximos do momento em que se consumou sobre o Calvário a possível   Redenção da humanidade inteira, parece-me particularmente apropriado que tu e eu consideremos os caminhos pelos quais Jesus Senhor Nosso nos proporcionou o salvamento; que contemplemos o seu amor, verdadeiramente inefável, por umas pobres criaturas formadas com barro da terra”.

Quando os primeiros fiéis escutavam a proclamação litúrgica dos relatos evangélicos da Paixão e a homilia que o bispo pronunciava, reconheciam-se em uma situação bem diferente de quem assiste a uma mera representação:

“para seus corações piedosos, não havia diferença entre escutar o que se havia proclamado e ver o que havia acontecido”.

Nos relatos da Paixão, a entrada de Jesus em Jerusalém é como a apresentação oficial que o Senhor faz de si mesmo como o Messias desejado e esperado, fora do qual não há salvação. O seu gesto é o do Rei salvador que vem à sua casa. Dentre os seus, alguns não O receberam, mas outros sim, aclamando-o como o Bendito que vem em nome do Senhor.

Tendo em vista o sacerdote na celebração do Tríduo Pascal, a Carta aos Hebreus é o único texto do Novo Testamento que atribui ao nosso Senhor Jesus Cristo os títulos de “Sacerdote, “Sumo Sacerdote” e “Mediador da Nova Aliança”, graças à oferenda do sacrifício do seu corpo, antecipado na Ceia mística da Quinta-Feira Santa, consumado sobre a cruz e apresentado ao Pai com a ressurreição e a ascensão ao céu (cf. Hb 9,11-15). Para conhecimento, este tal texto é meditado na Liturgia das Horas da quinta semana da Quaresmaou da Paixão, como no calendário litúrgico da forma extraordinária do Rito Romano – e na Semana Santa.

Nós todos, mesmo os sacerdotes católicos, devemos sempre contemplar Cristo e ter os mesmos sentimentos d’Ele; esta ascese acontece com a conversão permanente. Então pergunto: Como se deve realizar a conversão nos sacerdotes? No rito da ordenação é pedido o ensino da fé católica, não das ideias pessoais;

“celebrar com devoção dos mistérios de Cristo – isto é, a liturgia e os sacramentos – segundo a tradição da Igreja”, e não segundo o gosto particular; sobretudo, “estar cada vez mais unidos a Cristo Sumo Sacerdote, que, como vítima pura, ofereceu-se ao Pai por nós”, isto é, conformar a vida segundo o mistério da Cruz!

Assim, a Santa Igreja honra o sacerdote e o sacerdote deve honrar a Igreja com a santidade da sua vida – este foi o propósito de Santo Afonso Maria de Ligório no dia da sua ordenação –, com o zelo, com o trabalho e com o decoro. Ele oferece Jesus Cristo ao Pai Eterno e por isso deve estar revestido das virtudes de Jesus Cristo, para preparar-se para o encontro com o Santo dos Santos. Que importante é a preparação interior e exterior para a sagrada liturgia, para a Santa Missa! Trata-se de glorificar o Sumo e Eterno Sacerdote, Jesus Cristo. 

Por oportuno, Afonso Maria de Ligório, C.Ss.R., nascido Afonso Maria Antônio João Francisco Cosme Damião Ângelo Gaspar de Ligório, foi um bispo católico italiano que se destacou como escritor espiritual, filósofo escolástico e teólogo, nascido em Marianella, Nápoles - Itália, em 27 de Setembro de 1696 e falecido em Pagani - Itália - em 01 de Agosto de 1787, contados 91 anos de vida. Pois bem, tudo isso se realiza em grau máximo na Semana Santa, a Grande e Santa Semana, como dizem os orientais. Vejamos alguns dos seus principais atos, com base no cerimonial dos bispos.

1. Com a Missa in Cena Domini, da Quinta-Feira Santa, o sacerdote entra nos principais mistérios – a instituição da Santíssima Eucaristia e do sacerdócio ministerial –, assim como do mandamento do amor fraterno, representado pelo lavatório dos pés, gesto que a liturgia copta realiza ordinariamente cada domingo. Nada melhor para expressá-lo que o canto do Ubi caritas. Tal cântico talvez seja um dos cantos Gregorianos mais conhecidos. Após a comunhão, o sacerdote, usando o véu umeral, sobre ao altar, faz a genuflexão e, ajudado pelo diácono, segura a píxide com as mãos cobertas pelo véu umeral. É o símbolo da necessidade de mãos e corações puros para aproximar-se dos mistérios divinos e tocar o Senhor!


2. Na Sexta-Feira Santa in Passione Domini, o sacerdote é convidado a subir ao Calvário. Às três da tarde, às vezes um pouco mais tarde, acontece a celebração da Paixão do Senhor, em três momentos: a Palavra, a Cruz e a Comunhão.

Dirige-se em procissão e em silêncio ao altar. Depois de ter reverenciado o altar, que representa Cristo na austera nudez do Calvário, ele se prostra em terra: é a “proskýnesis”, como no dia da ordenação. Tal palavra, prosquínese, refere-se ao tradicional ato dos antigos persas de prostrar-se diante de uma pessoa de status social mais elevado. Assim, expressa a convicção do seu nada diante da Majestade divina, e o arrependimento por ter se atrevido a medir-se, por meio do pecado, com o Onipotente. Como o Filho que se anulou, o sacerdote reconhece seu nada e assim tem início sua mediação sacerdotal entre Deus e o povo, que culmina na oração universal solene.

Depois se faz a ostensão e a adoração da Santa Cruz: o sacerdote se dirige ao altar com os diáconos e lá, em pé, ele a recebe e a descobre em três momentos sucessivos – ou a mostra já descoberta – e convida os fiéis à adoração, em cada momento, com as palavras: Eis o lenho da cruz, do qual pendeu a salvação do mundo. Em sua descarnada solenidade, aqui, no coração do ano litúrgico, a tradição resistiu tenazmente mais que em outros momentos do ano. O sacerdote, após ter depositado a casula, se possível descalço, aproxima-se primeiramente da Cruz, ajoelha-se diante dela e a beija. A teologia católica não teme em dar aqui à palavra “adoração” seu verdadeiro significado. A verdadeira Cruz, banhada com o sangue do Redentor, torna-se, por assim dizer, “uma só coisa com Cristo e recebe a adoração”. Por isso, prostrando-nos diante do lenho sagrado, nós nos dirigimos ao Senhor:

Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo”.

3. A Páscoa do Reino de Deus se realizou em Jesus: oferecida e consumida a Ceia, “na noite em que ia ser entregue”; imolada sobre o Calvário na Sexta-Feira Santa, quando “houve escuridão sobre toda a terra”, mais uma vez à noite recebe a consagração da aprovação divina, na ressurreição de Cristo Senhor: por João, sabemos que Maria Madalena se aproximou do sepulcro “bem de madrugada”; portanto, aconteceu nas últimas horas da noite após o sábado pascal.

No Novus Ordo, o sacerdote, desde o início da Vigília, está vestido de branco, como para a Missa. Ele abençoa a fogo e acende o círio pascal com o novo fogo, se procede, após ter aplicado, como na liturgia antiga, uma cruz. Depois grava sobre o lado vertical da cruz a letra grega alfa e, abaixo, a letra ômega; entre os braços da cruz, faz a incisão de quatro algarismos para indicar o ano em curso, dizendo: Cristo ontem e hoje! Depois, feita a incisão da cruz e dos demais sinais, pode aplicar no círio cinco grãos de incenso, dizendo: Por suas santas chagas. Depois, cantando o Lumen Christi, guia a procissão rumo à igreja. O sacerdote está à cabeça do povo dos fiéis aqui na terra, para poder guiá-lo ao céu.

É o sacerdote que entoa solenemente Eis a luz de Cristo!. Ele o canta três vezes, elevando gradualmente o tom da voz: o povo, depois de cada vez, repete-o no mesmo tom. Na liturgia batismal, o sacerdote, estando de pé diante da fonte, abençoa a água, cantando a oração: Ó Deus, por meio dos sinais sacramentais; enquanto invocaDesça, Pai, sobre esta água, pode introduzir nela o círio pascal, uma ou três vezes. O significado é profundo:

·  o sacerdote é o órgão fecundador do seio eclesial, simbolizado pela fonte batismal.

Verdadeiramente, na pessoa de Cristo Cabeça, ele gera filhos que, como pai, fortifica com o crisma e nutre com a Eucaristia. Também em razão destas funções maritais com relação à Igreja esposa, o sacerdote não pode senão ser homem. Todo o sentido místico da Páscoa se manifesta na identidade sacerdotal, chegando à plenitude, o plếroma, como diz o Oriente. Com ele, a iniciação sacramental chega ao cume e a vida cristã se torna o centro.

Portanto, o sacerdote, que subiu com Jesus à cruz na Sexta-Feira Santa e desceu ao sepulcro no Sábado Santo, no Domingo de Páscoa pode afirmar realmente com a sequência:

“Sabemos que Cristo verdadeiramente ressuscitou dentre os mortos”.

Contextualmente, temos que em Romanos 6:4 ... Ou ignoremos que todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos igualmente batizados na sua morte? Portanto, fomos sepultados com Ele na morte por meio do batismo, com o propósito de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma nova vida. Se desse modo fomos unidos a Ele na semelhança da sua morte, com certeza seremos também semelhança da sua ressurreição.

O fato é que Cristo ressuscita para que nós também ressuscitemos. ... de voltarmos a viver, de voltarmos a sermos verdadeiramente felizes!

Roberto  Costa  Ferreira,  07  Abril  2023

Professor  -  Psicanalista -  Pesquisador

UNIFESP-Universidade Federal S. Paulo




segunda-feira, 13 de março de 2023

DIA INTERNACIONAL da MULHER II ... A distância. Uma questão de TEMPO? - A síntese das perfeições!

 


O presente trabalho netnográfico traz à lume a mulher, as distâncias e o tempo, ainda em tempos de Semana Internacional da Mulher. O Tempo, ou melhor, os Tempos e sua relação com as vidas. Neste prólogo trago à baila a relação das pessoas com o tempo, que muda de acordo com o contexto em que estão inseridas.

Em sociedades tradicionais, o tempo era visto como algo repetitivo e não cumulativo. Ou seja, as pessoas fariam a mesma atividade durante anos sem se incomodar com isso e o tempo de experiência no desempenho daquela função não era tão importante quanto é hoje, quando medimos a competência dos indivíduos pelo tempo de experiência.

Desse modo, em razão de tais dimensões de distância, tempo e espaço não poderia deixar de envolver nesta conversa um escritor, divulgador científico, ativista e cientista planetário detentor de profundo senso de reverência com relação à vida e ao ser humano. Ele acreditava que “estar vivo e ter uma consciência era não apenas um privilégio, mas também uma grande responsabilidade”!

A paixão pela ciência e astronomia levou Carl Sagan a revelar seus pensamentos e mensagens de forma que nenhum outro cientista conseguia. O criador e apresentador da famosa série televisiva da década de oitenta, “Cosmos: Uma Viagem Pessoal”, nos deixou reflexões incríveis sobre o universo, a vida, o amor, a religião, e muito mais. Uma das frases mais famosas de Carl Sagan foi dedicada à sua esposa, e coapresentadora de Cosmos, Ann Druyan, quando disse que:

“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com Annie.”

A declaração de amor “científica” revela um de seus lados mais compreensivo: ele era capaz de relacionar vários assuntos diferentes e tornar a ciência algo bonito de se ver e escutar, enxergando a mulher muito além de nossa dimensão: O cosmos e a mulher!

O que nos vem à mente quando pensamos em cosmos? Certamente grandeza, imensidão, admiração... Na origem grega: "ordenamento". Pois bem, quando as mulheres usam produtos cosméticos, querem a beleza, e o cosmos está aí nesta "cosmética", pois sua etimologia demonstra este voltar-se para o belo.

Podemos, fazer uma analogia entre o cosmos e a mulher. Primeiramente, o universo tem uma vastidão imensa, podemos pensar em bilhões de estrelas, galáxias de uma distância que foge a nossa vã imaginação. E a mulher, que é parte deste cosmos, possui uma profundidade/sensualidade imensa! Por mais que tentemos compreendê-las, nossas "investigações" ficam reduzidas diante delas.

No requisito do belo, penso (com inveja) dos astronautas que viajam e veem a terra como um pontinho azul "perdido" no cosmos, nossa! Deve ser algo incrível ... Agora imaginem os "traços curvos" de uma bela mulher ...

Meu Deus, é de fazer qualquer um suspirar ... Principalmente quando permitido “se tocar em seus quadris ..." Parece que o universo se silencia! Aliás, Einstein nos diz que o espaço é curvo... bem, se "ele" disse nós dizemos amém!

A mulher tem um quê de sedutor quando nos olha, e sabemos que atrás deste tem um mistério insondável! E o cosmos tem um certo "ar misterioso". Quando contemplamos um céu estrelado e imaginamos quanta vastidão de mistérios insondáveis estão nos esperando ... Sim, o homem foi feito para as estrelas, nascemos para com elas brilhar!

Caros leitores, convidando-os a conhecerem tal aprofundamento da matéria com um clique no blog, terminando assim estas singelas palavras com benditas de Rui Barbosa:

"A mulher é a síntese de todas as perfeições"!

Roberto Costa Ferreira, Dia Mundial da mulher!
PROFESSOR–PSICANALISTA–PESQUISADOR
UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo