“Eis o
Homem!” — Disse PILATOS (João 19:5)
Apresentando o
Cristo à multidão, Pilatos não designava um triunfador terrestre…
· Nem banquete, nem púrpura.
· Nem aplauso, nem flores.
· Jesus achava-se diante da morte.
Terminava uma
semana de terríveis flagelações:
· Traído, não se rebelara.
· Preso, exercera a paciência.
· Humilhado, não se entregou a revides.
Mesmo quando
esquecido, não se confiou à revolta.
· Quando escarnecido, desculpara.
· Mesmo tendo sito açoitado, olvidou a ofensa.
· Injustiçado, não se defendeu.
· Sentenciado ao martírio, soube perdoar.
E ainda,
quando Crucificado, voltaria à convivência dos mesmos discípulos e
beneficiários que o haviam abandonado, para soerguer-lhes a Esperança. Mas,
exibindo-o, diante do povo, Pilatos não afirma: — Eis o condenado, eis a
vítima!
Diz
simplesmente: — “Eis o Homem!”
Aparentemente
vencido, o Mestre surgia em plena grandeza espiritual, revelando o mais
alto padrão de "dignidade humana"!
Rememorando,
pois, semelhante passagem, recordemos que somente nas linhas morais do Cristo é
que atingiremos a Humanidade Real. Esta é uma lição muito profunda ...
A Humanidade de Cristo
Desde o
momento da concepção virginal de Jesus no ventre de Maria, a sua
natureza divina foi permanentemente unida à sua natureza humana em uma e a
mesma pessoa, o agora encarnado Filho de Deus!
A evidência
bíblica para a humanidade de Jesus é forte, mostrando-nos que ele possuía:
· um corpo humano,
· uma mente humana, e
· experimentou a tentação
humana.
Jesus teve um nascimento
humano e uma genealogia humana:
“vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho,
nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a
lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos”
(Gálatas
4.4-5).
Porque, como,
pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também,
por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos”
(Romanos 5.18-19).
Porque Jesus é
verdadeiramente humano, a sua vida perfeita de obediência e triunfo sobre todas
as tentações – culminando em sua perfeita morte substitutiva – pode tomar o
lugar da rebelião e do fracasso humanos.
Por causa da
humanidade de Jesus, ele pode verdadeiramente ser um sacrifício substitutivo
pela raça humana.
“Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse
semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas
referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo.”
(Hebreus
2.17).
Um homem
morreu na cruz quando Jesus morreu, e a sua morte verdadeiramente é a
expiação pelo pecado de seres humanos, de cuja natureza ele participou. A
humanidade de Jesus faz dele o único mediador eficaz entre Deus e o homem:
“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens,
Cristo Jesus, homem”
(1Timóteo
2.5).
As naturezas
divina e humana de Jesus o habilitam a se colocar na
brecha entre homens caídos e um Deus santo.
A humanidade
de Jesus o habilitou a tornar-se um Sumo Sacerdote empático, que
experiencialmente entende a difícil condição da humanidade em um mundo caído:
“Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas
fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas
sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a
fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião
oportuna”.
(Hebreus 4.15-16; cf. Hebreus 2.18).
Portanto, a humanidade
de Jesus significa que ele é um verdadeiro exemplo e modelo para o caráter
e a conduta dos homens.
“Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo
sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos”
(1Pedro
2.21; cf. 1João 2.6).
Erros Históricos Acerca da
Humanidade de Cristo
Uma heresia do
segundo século chamada “docetismo” – Uma doutrina cristã do século
II e II, considerada herética pela igreja primitiva. Antecedente do “gnosticismo”,
acreditavam que o corpo de Jesus Cristo era uma ilusão, e que sua
crucificação teria sido apenas aparente - negava a verdadeira
humanidade de Cristo.
O docetismo
sustentava uma dicotomia radical entre os reinos físico e espiritual, bem como
uma visão muito negativa da ordem física como sem valor e desprezível. Essas
crenças conduziram a uma negação de que houvesse qualquer substância física
real na humanidade de Jesus. A cristologia docética ensinava em uma de suas
afirmações que: “quando Jesus caminhava na praia, ele não deixava pegadas”.
O docetismo teve e tem:
· efeitos devastadores sobre uma correta visão de
Cristo,
· da salvação, da revelação e da criação.
Nessa
perspectiva, Cristo não representa a humanidade em sua obra expiatória,
tampouco nos revela Deus em forma humana. Tal ensino também destrói uma
visão biblicamente positiva da criação, conduzindo a uma perspectiva negativa
ou indiferente acerca da vida no corpo.
O Novo Testamento
refuta as sementes do que viria a se tornar o gnosticismo, com a sua visão
docética de Cristo:
· E João condena severamente qualquer visão que
negue a humanidade plena, física de Cristo:
“Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que
Jesus Cristo veio em carne é de Deus”
(1João 4.2).
O apolinarianismo foi
outra heresia primitiva que negava a humanidade plena de Cristo.
Apolinário
(século IV d.C.)
Apolinário
de Laodicéia (c. 310 - c. 390) foi bispo de Laodicéia. É também
conhecido como Apolinário, o Jovem, para distingui-lo de seu pai Apolinário,
o Ancião.
É o propositor da teoria chamada “apolinarianismo”, considerada herética
no primeiro Concílio de Constantinopla. Afirmava que:
“Jesus não tinha um espírito humano e que seu espírito manipulava o
corpo humano, contrariando o arianismo que negava a divindade de Cristo”.
Apolinário, bispo
de Laodicéia, estimulou a controvérsia sobre a natureza de Cristo, afirmando
que:
“Cristo não podia ter duas naturezas, a divina e a humana, completas e
contrárias, pois a divina era eterna, invariável, perfeita, e pelo contrário, a
humana era temporal, finita, imperfeita e corruptível”.
Afirmava que o
homem está formado de alma, corpo e razão; sustentava que se Cristo houvesse
tido as duas naturezas, se houvesse tido em si dois seres, com a parte humana
poderia ter praticado algum pecado.
Curiosamente,
Jesus tinha corpo e alma humanas, mas se diferenciava do resto dos seres
humanos em que o Logos divino substituiu ao intelecto humano,
resolvendo dessa maneira a relação entre o divino e o humano em Jesus.
Apolinário estava convencido de haver resolvido um dos mistérios ou
enigmas mais irresolúveis, e de haver permanecido fiel à ortodoxia nicena. Apolinário
pertencia à escola de Alexandria, a qual:
· havia recebido mais a influência neoplatônica,
· a diferença da escola de Antioquía, que se inclinava
mais ao estudo da história da vida de Cristo,
· e era afetada pelo pensamento aristotélico.
Reiterando, o apolinarianismo
acreditava que os seres humanos possuíam corpos, almas animais e espíritos
racionais. Ele ensinava que:
· o logos divino em Cristo tomou o lugar
do espírito racional presente nos homens.
Essa visão foi
refutada de modo bem-sucedido:
· no quarto século por Gregório de Nisa (considerado
um dos padres orientais mais expressivos do século IV.
Ele morreu
entre os anos 395 a 400. Místico e escritor cristão, irmão de Basílio
Magno, faz parte, com este e com Gregório Nazianzeno, dos assim
denominados padres capadócios. É neto de Santa Macrina Maior, filho de
Basílio, o Velho e irmão de Santa Macrina, a Jovem. Amante do
estudo e da solidão, foi a contragosto posto à frente de uma diocese. Sua
bondade e falta de senso prático foi julgada muitas vezes como ingenuidade.
Também Atanásio
- Atanásio de Alexandria - foi o vigésimo arcebispo de Alexandria,
Doutor da Igreja e santo da Igreja Católica. Seu episcopado durou 45 anos,
dos quais dezessete ele passou exilado, em cinco ocasiões diferentes e por
ordem de quatro diferentes imperadores romanos. Foi um religioso muito atuante,
discípulo e contemporâneo de figuras muito importantes do clero que a Igreja
honrou com a veneração nos altares. Nascido em Alexandria em 295, é
a figura mais dramática e desconcertante da galeria dos Padres da Igreja.
Obstinado
defensor da ortodoxia durante - nascido em Alexandria em 295, é a figura
mais dramática e desconcertante da galeria dos Padres da Igreja. Obstinado
defensor da ortodoxia durante a grande crise ariana, imediatamente após o Concílio
de Niceia, pagou a sua heroica resistência à difundida heresia com cinco
exílios que lhe foram impostos pelos imperadores Constantino, Constâncio,
Juliano e Valente.
Ário,
sacerdote proveniente da própria Igreja de Alexandria, negando a
igualdade substancial entre o Pai e o Filho, ameaçava ruir as estruturas do
cristianismo. De fato, se Cristo não é o Filho de Deus, a que se reduz a
redenção da humanidade? Bem como, rejeitada no Concílio de Constantinopla em
381 d.C.. (Este Concílio foi convocado em maio de 381 pelo Imperador
Teodósio para:
· proporcionar uma sucessão católica para a Sé
Patriarcal de Constantinopla,
· confirmar o Símbolo de Fé de Niceia,
· reconciliar os semi-arianos com a Igreja e,
· acabar com a heresia macedoniana, debatendo a
natureza de Cristo).
Referido concílio
demonstrou que se Jesus fosse apenas, digamos, dois terços humanos, a plena
redenção de pessoas plenamente humanas não seria possível. Na citação
célebre de Gregório:
“aquilo que Ele não assumiu Ele não curou; mas aquilo que está unido à
Sua Divindade também está a salvo”.
Jesus deveria
assumir cada elemento da natureza humana a fim de redimir completamente a
humanidade.
Essas duas
heresias ensinam os crentes, nós os espíritas, a apreciarem a importância da
humanidade de Cristo, bem como proporcionam uma lição acerca do método
teológico. Ambas essas visões se aproximam da Bíblia com pressuposições acerca
da humanidade e conformam o ensino bíblico a elas, ao invés de permitirem
que a Escritura governe todas as coisas, incluindo as pressuposições.
O método
teológico evangélico deve sempre permitir que o ensino da Escritura molde as
conclusões teológicas, ao invés de distorcer o seu ensino com base em assunções
estranhas a ela. Inúmeros erros teológicos tem ocorrido pela imposição de
ideias humanas à Bíblia.
Portanto, ao
estudarmos as duas naturezas de Cristo, vamos perceber que Ele é o
Deus-homem, ou seja:
· Possui uma natureza humana e,
· uma natureza divina. Cristo é verdadeiramente
homem e verdadeiramente Deus.
Com essas duas
naturezas, Ele não deixa de ser uma pessoa. Alguns dizem que Cristo é 100%
homem e 100% Deus, mas o evangelho mostra-O como 100% Deus-homem, porque
é uma pessoa completa com duas naturezas, não podendo ser dividido. E,
para realizar a sua missão Cristo tinha que possuir duas naturezas, e é isso
que vemos neste estudo ora exposto.
Ainda, as
reflexões oriundas do que foi dito, quando pautado em Emmanuel, segundo
a visão espírita, prestam-se
aos nossos comportamentos, nossos pensamentos, nas nossas condutas, nas escolhas
que fazemos em razão das circunstâncias que nos são presentes e nas nossas
vidas. E quando nos achamos afetados e os modos de defesa:
· quer humanas e terrestres, ou
· esperando pela providência divina; mas cobrando
"essa justiça divina" para que o outro pague aquilo que eu creio ter
sido injustiçado. Qual a minha conduta?
Vasta e duradoura lição!
Roberto Costa Ferreira, 19/09/2020 - FEESP.
Professor – Psicanalista e Pesquisador
Unifesp – Universidade Federal–S.Paulo